O conceito é bastante complexo porque tem muitas interpretações. Para não ficar no achismo e na imaginação, apresento a definição de um autor com vasta experiência no assunto.
De acordo com Vicente Gosciola, hipermídia é “o conjunto de meios que permite acesso simultâneo a textos, imagens e sons de modo interativo e não linear, possibilitando fazer links entre elementos de mídia, controlar a própria navegação e, até, extrair textos, imagens e sons cuja seqüência constituirá uma versão pessoal desenvolvida pelo usuário”.
Ainda este autor afirma que a hipermídia é o meio e a linguagem das “novas mídias”, às quais pertencem a internet, os jogos de computador, o cinema interativo, o vídeo interativo, a TV interativa, as instalações informatizadas interativas e os sistemas de comunicação funcionais, entre outros e suas respectivas interfaces.
Também há autores que usam o conceito de hipermídia quase como um sinônimo de outros conceitos relacionados como hipertexto e multimídia, mas essas são questões que devemos abordar mais adiante. Até agora, vale ressaltar que a característica máxima que deve diferenciar a hipermídia desses outros conceitos é o alto nível de interatividade permitido ao usuário.
Para quem quer saber mais sobre assunto, recomendo ler a entrevista do professor Gosciola ao jornal Folha de São Paulo.
Comunicação para um público hipermidiático - Vicente Gosciola.
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Informação: AESP - Associação de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo - 07/11/2004
Folha de São Paulo Mais - Multimídia
Especialista em tecnologia e mídias digitais defende importância de roteiros específicos para produtos que vão de sites a instalações artísticas interativas
Juliana Monachesi
free-lance para a Folha
Sistema audiovisual integrador de vários meios de comunicação, com ênfase na interatividade, a hipermídia é considerada um novo paradigma de comunicação pelo professor e pesquisador do Centro Universitário Senac e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Vicente Gosciola. "É o conjunto de meios que permite acesso simultâneo a textos, imagens e sons de modo interativo e não-linear, possibilitando fazer links entre elementos de mídia, controlar a própria navegação e, até, extrair textos, imagens e sons cuja seqüência constituirá uma versão pessoal desenvolvida pelo usuário", escreve em "Roteiro para Novas Mídias - Do Game à TV Interativa" (ed. Senac, 272 págs., R$ 52), em que estuda a linguagem da hipermídia e propõe roteirizações específicas para o campo das novas tecnologias. Gosciola falou sobre seu livro recém-lançado em entrevista ao Mais!, por e-mail.
Que efeitos da contaminação tecnológica e de linguagem oriunda da disseminação das mídias digitais já podem ser observados na TV e na mídia impressa? ´
Para explicar a atual revisão de paradigmas nos meios de comunicação, vale utilizar, como alegoria, a peça de Gil Vicente "O Velho da Horta". O dono da horta se apaixona por uma bela jovem compradora, que o ironiza, respondendo às súplicas do pretendente: "Falai de outra maneira!". Transpondo resumidamente para quase 500 anos depois, a TV e a imprensa, mais velhas que o velho da horta, se encantaram com a possibilidade de absorver um novo meio e o seu crescente público. A TV e a imprensa se dispõem a dialogar com a tecnologia digital, mas se preocupam pouco em desenvolver uma linguagem própria, porque não é de sua natureza rever profundamente sua linguagem.
É certo que há contaminações diretas entre os meios tradicionais e novos, às vezes até em espiral. Por exemplo: o painel do aparelho de TV evoluiu e foi copiado para a interface de muitos sites da web, que, por sua vez, evoluiu e foi copiada para o painel do televisor e para a interface de programas de TV, sejam eles interativos ou não. Mas a finalidade do meio é o seu público, que mudou e quer se relacionar com "tudo ao mesmo tempo agora" de modo dialógico. E o roteiro tem duas preocupações: organização de conteúdos e o público.
O sr. adota a acepção dada pelo teórico russo Lev Manovich à expressão "novas mídias", ou seja, apenas aquelas mídias que envolvem tecnologia digital. Hipermídia vem, logo no início do livro, definida como o meio e a linguagem das novas mídias. Qual a especificidade dessa linguagem?
A partir da década de 1980, os teóricos que produziam reflexão sobre as obras -de arte, de entretenimento e de divulgação jornalística e científico-acadêmica- que utilizavam os processos de comunicação integrados por sistemas digitais informatizados passaram a chamar esses meios de novos meios de comunicação, as "novas mídias". Pertencem a esse novo campo da comunicação a internet, os jogos de computador, o cinema interativo, o vídeo interativo, a TV interativa, as instalações informatizadas interativas, os sistemas de comunicação multifuncionais, entre outros, e todos eles nas suas mais variadas interfaces. Assim como o cinema possui uma linguagem própria e já consolidada, as novas mídias possuem uma linguagem, mas que está em pleno processo de construção; essa linguagem é chamada de hipermídia. Também podemos fazer a mesma analogia com a prática de roteirização: em cinema já existe um conjunto de estilos e operacionalidades bem definido, enquanto em hipermídia vemos um campo novo e repleto de possibilidades a ser explorado.
A especificidade da hipermídia é constituída pela complexidade de conteúdos e de ligações entre eles e pelos percursos que o utilizador faz na obra hipermidiática. Como em muitos meios de comunicação, a hipermídia depende do uso que se faz dela, ela é um resultado da participação de seu público, porque nem todos os seus conteúdos serão conhecidos por cada indivíduo.
Estudos recentes encaram o formato convencional de exibição cinematográfica simplesmente como a forma padrão, uma entre outras, que veio a se tornar hegemônica na história do audiovisual; que possibilidades diversas as novas mídias oferecem de fruição de produtos audiovisuais?
O cinema interativo já foi apresentado ao público, mas em situações muito raras porque a opção por uma ramificação narrativa era decidida pela média da preferência da platéia. Entre os EUA e o Japão, em 1995, foram instaladas 25 salas da Interfilm, com 80 poltronas, cada uma com um conjunto de botões e "joystick" para controlar a história durante os 20 minutos de duração das obras, bastante criticadas pela ausência de enredo. O game é de natureza não-linear. De vídeo interativo há vários exemplos em DVD, em exposição de arte interativa, em programação de TV etc.
Roteirizar significa prever toda e qualquer interação entre obra e usuário? Isso implicaria em dizer que a interatividade não possibilita que aconteça nada de "novo"; que tudo deve estar previamente programado? Uma hipermídia de tamanho médio, com algo em torno de mil telas, traz muita dificuldade ao roteirista em prever interação entre a obra e o utilizador, ou quais telas e em que ordem o utilizador seguirá. O roteiro tem o papel de definir os possíveis caminhos pelos quais o utilizador poderá circular. No livro lanço a possibilidade de um modelo fundamentado no princípio da incerteza da física quântica, em que, por mais que o roteirista tente manter o controle dos caminhos traçados pelo utilizador, é impossível saber quando ele passará por um determinado conteúdo.
Qual a diferença entre roteiro para hipermídia e design de interfaces? Ao roteirista de hipermídia cabe, em linhas gerais, desenvolver as narrativas e as relações entre elas, sempre preocupado com o que o seu público experimentará com a obra. Ao designer de interface e ao autor de hipermídia cabe, principalmente, definir a arquitetura de informação e o layout das telas. O sr. poderia comentar este aparente paradoxo dos produtos hipermidiáticos, apontado por Bolter e Grusin no livro "Remediation": ao mesmo tempo em que se constituem com pesada mediação, buscam apagar-se como mídia?
Todos nós compreendemos que a hipermídia cresce e amplia, de modo espantoso, a sua capacidade de conteúdos. Para o utilizador da hipermídia, é necessário tempo para que os conteúdos se reorganizem em sua mente ou até mesmo sejam apagados da memória para dar lugar a outros conteúdos. Mas o roteiro pode trabalhar a partir de um fato ainda mais intrigante em hipermídia e ainda pouco explorado nas mais diversas realizações: como dois conteúdos apresentados simultaneamente em uma única tela são organizados pelo usuário e como se comportam em sua mente? No cinema já houve alguns cineastas, como Eisenstein, que se preocuparam com o que aconteceria com a percepção do espectador depois de ver duas imagens distintas. A hipermídia pode aprender muito com o cinema. Em hipermídia, muitas vezes vários conteúdos aparecem na tela ao mesmo tempo. Mas o que acontece com a interpretação do usuário quanto à comunicação de conteúdos e à narrativa, quando uma tela apresenta simultaneamente dois ou mais conteúdos, é o grande desafio do trabalho de roteirização de hipermídia.
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