COMENTÁRIO SOBRE O TEXTO “LITERATURA POLICIAL BRASILEIRA”, DE SANDRA REIMÃO
As histórias de detetive, de acordo com Todorov podem ser classificadas em três grupos: romance de enigma, romance negro e de suspense. Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Aghata Christie formam o trio clássico do chamado romance de enigma. Dashiel Hammett e Raymond Chandler são praticamente os fundadores e os nomes mais expressivos do romance negro. Já os romances de suspense têm como nomes principais Patrik Quentin e Charles Williams.
Enquanto nos Estados unidos e na Europa as histórias se desenvolveram e evoluíram, no Brasil também esse tipo de literatura foi explorado. A primeira narrativa policial brasileira, “o mistério”, foi escrita a oito mãos por Coelho, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa, e publicada em capítulos pelo jornal A Folha a partir de Março de 1920 (Reimão, 2005). As principais características presentes no “Mistério” são: auto-ironia, por pertencer ao gênero policial, em relação à própria trama e sua forma de narração. Intertextualidade destacando as citações e referências a autores policiais, enquanto na literatura policial clássica a intertextualidade tem a função de especificar um texto em relação ao seu gênero, em O Mistério há o exagero do uso de tal recurso com a função de ironizá-lo. Autores se citam mutuamente e se tornam personagem. Inocência do criminoso Critica ao sistema judiciário nacional, Critica e exaltação da polícia, sendo o assassino Pedro Albergaria a personagem que será o porta-voz para tal crítica. Critica ao detetive Clássico, no caso Major Melo Bandeira ao tentar aplicar os métodos científicos da linha de Sherlock Holmes, sempre falha, envolvimento amoroso com criminosa e suicídio.
Segundo Sandra Reimão (2005), os detetives enigma aqui no Brasil serão também máquinas de raciocinar e seus traços pessoais em nada alteram suas atuações enquanto detetives. Para citar alguns exemplos temos: Cabral, da obra 20º Axioma, de José Loureiro, com sua mania de artigos de papelaria, canetas e agendas. Hilário Pasúbio, de O Caso do martelo, de José Clemente Pozenato ,que é viciado em cigarros e o Dr. Leite, dos contos de Luís Coelho, com sua fraqueza pelas mulheres.
Há exceções também na tipificação dos detetives da literatura brasileira, por exemplo, o Major Melo Bandeira, protagonista de “o mistério”, não é um tipo perfeito de detetive clássico, pois é engraçado e atrapalhado. Tonico Arzão da obra Quem Matou Pacífico, de Maria Alice Barroso é ex-fazendeiro, manco, desdentado, fala errado, cabelos grisalhos e nariz adunco, queixo cumprido, gosta de acariciar as pessoas enquanto conversa, além disso, é crente nas coisas sobrenaturais e, sua investigação é pautada por esse paradigma místico. O cabo Turíbeo de “O Mistério do fiscal dos canos Assassinato do casal de velhos”, de Glauco Rodrigues Corrêa, as palavras cruzadas dão suporte ao protagonista na resolução de enigmas. Espinosa, protagonista dos romances policias de Luiz Alfredo Garcia – Roza, os vícios de Espinosa, quais sejam andar pelo Rio de Janeiro antigo e colecionar livros dão ocasiões para muitas das suas deduções e achados. Logo se percebe que tais detetives e estão longe de ser máquinas pensantes, mas que suas características pessoais dão suporte para a resolução dos crime que os tais se propõem a solucionar.
Na obra o Xangô de Baker Street, de Jô Soares, há algumas características desses protagonistas citados acima: a comicidade presente no Major Melo Bandeira, está presente em Sherlock Holmes, pois o mesmo, nessa obra, é o oposto do que escreveu Conan Doyle , uma máquina pensante. Na obra de Jô soares ele é atrapalhado, ingênuo e não desvenda o crime. Assim como o Dr. Leite, ele tem fraqueza pelas mulheres, sendo preso até por atentado ao pudor. O misticismo de Tonico Arzão também está presente, pois quando Holmes e Watson estão em um terreiro de candomblé, uma entidade ao possuir o último, revela quem é o verdadeiro criminoso.
Por fim, a literatura policial brasileira além de fazer crítica a este gênero textual, ao mesmo tempo se filia e faz apologia à literatura de investigação. Ao recriar e trazer à tona um novo tipo de literatura policial, insere nesse contexto, além da brasilidade, a crítica social, bem como a religiosidade e a pluralidade cultural do povo brasileiro, quer seja, daqueles que moram nos morros, ou do morador das grandes cidades, e nisso, a literatura policial brasileira se torna singular e ímpar e nesse sentido se contrasta com as produções européias e norte- americanas.
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