O reino ctônio de Plutão chamava-se mais comumente Hades, mas havia outros nomes pelos quais podia ser designado, na Grécia e em Roma, muitas vezes tomando-se a parte pelo todo, como Érebo, Tártaro, Orco, Inferno, estes dois últimos provenientes do latim.
Discutida a etimologia de Hades, tentaremos estabelecer as das outras denominações, quando existirem
ÉREBO, do grego Έρεβος (Érebos), designa as trevas que cercam o mundo. Trata-se de uma concepção indo-européia * reqwos, " cobrir de trevas", que aparece no sânscrito como rájas, "espaço escuro", no gótico riqiz, "escuridão", e no armênio erek, "tarde" .
TÁRTARO, é o grego Τάρταρος (Tártaros), "abismo subterrâneo, local de suplícios", é possivelmente um empréstimo oriental.
ORCO é o latim Orcus, "morada subterrânea dos mortos, os infernos". A Etimologia do vocábulo é desconhecida. A proveniência do indo-europeu * areq ou areg é atualmente considerada como fantasiosa, quando não absurda.
INFERNO ou OS INFERNOS é palavra latina infernus. Etimologicamente infernus é uma forma segunda de inferus "que se encontra embaixo", por oposição a superus, "que se encontra em cima", onde a oposição Di inferi, deuses do Inferno, do Hades, e Di Superi, deuses do Olimpo. Observa-se, ainda, em latim, os comparativos inferior, que está mais embaixo, "inferior", por oposição a superior, que está mais acima, "superior.
Substantivado o neutro plural inferna, -orum, significa as habitações dos deuses de baixo e também dos mortos, quer dizer, o Inferno, abstração feita, em princípio, de local de sofrimento ou de castigo, já que todos na Grécia e em Roma iam para o "Inferno", como parece ter sido no Antigo Testamento, o sentido de Sheol, onde é documentado sessenta e cinco vezes, como por exemplo em Jó 17,16: in profundissimum infernum descendent omnia mea: "todas as minhas coisas descerão ao mais profundo dos infernos".. E era, precisament, com esta acepção que ainda se rezava, no Credo, não faz muito tempo, (que Jesus Cristo) desceu aos infernos, expressão que, para evitar equívoco, foi substituída por desceu à mansão dos mortos. É a partir do Novo Testamento, todavia, que o Inferno, é identificado com a Geena, local de sofrimento eterno e a parte mais profunda do Sheol, como está em Lc 16,22-23.
Factum est autem ut morertur mendicus et portartur ab angelis in sinum abrahae. Mortuus est autem et diues et sepultus est in inferno: "Ora sucedeu morrer o mendigo e foi levado pelos anjos para o seio de abraão, e morreu também o rico, e foi sepultado no inferno". A Sequencia da Parábola diz que Lázaro, o mendigo, estava lá em cima e o rico lá em baixo, havendo entre ambos um abismo intransponível.
Na Grécia, ao que tudo indica, somente a partir do Orfismo, lá pelo século VII-VI a.e.c., é que o Hades, o Além, foi dividido em três compartimentos: Tártaro, Érebo e Campos Elísios. O fato facilmente se explica, é que o Orfismo rompeu com a secular tradição da chamada maldição familiar, segundo o qual não havia culpa individual, mas cada membro do guénos era co-responsável e herdeiro das faltas de cada um de seus membros, e tudo se quitava por aqui mesmo. Para os Órficos a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; e quem não se purgar nesta vida, pagará na outra ou nas outras. Havendo uma retribuição, forçosamente terá que existir, no além, um prêmio para os bons e um castigo para os maus e, em consequência, local de prêmio e de punição.
Quanto à localização, o Hades era um abismo encravado nas entranhas da Terra, e cuja entrada se situava no Cabo Tênero (sul do peloponeso) ou numa caverna existente perto de Cumas, na Magna Grécia (sul da Itália).
Também na literatura babilônia, na epopéia de Gilgamesh, nos mitos de Nergal e Ereskigal, na descida de Istar para os Infernos, estes são um lugar debaixo da Terra, além do oceano cósmico. Há dois caminhos para se chegar lá: descendo na terra ou viajando para o extremo ocidente; mas antes de atingir o Além, é necessário transpor o rio dos mortos, "as águas da morte". Também as concepções ugarítica e bíblica localizam o Inferno nas profundezas da Terra. Abrindo-se está, Coré, o levita, que se opõe a Moisés, bem como Datã e Abirão, com os seus, desceram vivos para os Infernos. Jó, que o considera como o lugar mais baixo da criação, imagina os acessos à outra vida no fundo do oceano primordial, em que a terra bóia.
O universo por conseguinte, é dividido em três partes: "acima da terra, na terra e debaixo da terra" ou céu, terra e inferno.
Para que se possa compreender o destino da alma no Hades, vamos acompanhá-la em sua longa viagem, do túmulo ao reino de Plutão. A obrigação mais grave de um grego é o que concerne ao sepultamento de seus mortos: filhos, ou , na carência destes, os parentes mais próximos devem sepultar seus pais segundo os ritos, sob pena de lhes deixar a alma volitando no ar por cem anos (o cômputo é puramente fictício), sem direito a julgamento, e, por conseguinte, à paz do Além.
O Sepultamento, todavia, depende de certos ritos preliminares: o cadáver, após ser ritualmente lavado, é perfumado com essências e vestido normalmente de branco, para simbolizar-lhe a pureza. Em seguida, é envolvido com faixas e colocado numa mortalha, mas com o rosto descoberto, para que a alma possa ver o caminho que leva à outra vida. Certos objetos de valor são enterrados com o morto: colares, braceletes, anéis, punhais... Os arqueólogos, escavando túmulos, encontraram grande quantidade desses objetos. em certas épocas se colocava na boca do morto uma moeda, óbolo destinado a pagar ao barqueiro Caronte, para atravessar a alma pelos quatro rios infernais. Essa idéia de pagamento da passagem, diga-se logo, não é um simples mecanismo da imaginação popular. Toda moeda ´eum símbolo: representa o valor pelo qual o objeto é trocado. Mas, além de seu valor próprio de dinheiro, de símbolo de troca, as moedas, consoante Cirlot, "desde a antiguidade tiveram certo sentido talismânico", uma vez que nelas a conjunção do quadrado e do círculo não é incomum. além do mais, a moeda, em grego nómisma, é o símbolo da imagem da alma, porque esta traz impressa a marca de Deus, com oa moeda o traz do soberano, segundo opina Angelus Silesius. A moeda chinesa, denominada "sapeca", é um círculo com um furo quadrado no centro: vê-se aí claramente a coniunctio oppositorum: a conjunção do Céu (redondo) e da Terra (quadrada), o aniums e a anima, formando uma totalidade. Por vezes se colocava junto ao morto um bolo de mel, que lhe permitia agradar o cão Cérbero, guardião da porta única de entrada e saída do Hades. O Cadáver é exposto sobre um leito, durante um ou dois dias, no vestíbulo da casa, com os pés voltados para a porta, ao contrário de como entrou na vida a cabeça do morto, coroada de flores, repousa sobre uma pequena almofada. Todo e qualquer homem podia velor o morto, acompanhar-lhe o féretro e assitir-lhe ao sepultamento ou à cremação, mas a lei era extremamente rígida com a mulher: na ilha de Ceos só podiam entrar na casa, onde houvesse um morto, aquelas que estivessem "manchadas" (a morte sempre contamina) pela proximidade de parentesco com o mesmo, a saber, a mãe, a esposa, as irmãs, as filhas e mais cinco mulheres casadas e duas jovens solteiras, cujo grau de parentesco fosse no mínimo de primas em segundo grau.
Em Atenas, igualmente, a legislação de Sólon era severa a esse respeito: só podiam entrar na casa do morto e acompanhar-lhe o enterro aquelas que fossem parentes até o grau de primas. Os presents vestiam-se de luto, cuja cor podia ser preta, cinza e, por vezes, branca, e cortavam o cabelo em sinal de dor. Carpideiras acompanhavam o féretro para cantar o treno. Diante da porta da casa se colocava um vaso (ardánion) cheio de água lustral, que se pedia ao vizinho, porque a da casa estava contaminada pela morte. todos que se retiravam, se aspergiam com essa água, com o fito de se purificar. O enterro se realizava na manhã seguinte à exposição do corpo. A lei se Sólon prescrevia que todo enterro se deveria realizar pela manhã, antes do nascimento do sol. Desse modo, os enterros em Atenas se faziam pela madrugada e por motivo religioso: até os raios de sol se manchavam com a morte! No cemitério, sempre fora dos muros da cidade, o corpo era inumado ou cremado sobre uma fogueira: neste último caso, as cinzas e os ossos eram cuidadosamente recolhidos e colocados numa urna. que era sepultada. Após se fazerem libações ao morto, voltava-se para casa e se iniciava o minuscioso trabalho de puriricação da mesma, porque, para os gregos, o maior dos "miasmas" era o contato com a morte. Após um banho de cunho rigorosamente catártico, normalmente com água do mar, os parentes do morto participavam de um banquete fúnebre; este se renovava, em Atenas, ao menos, no terceiro, nono e trigésimo dia e na data natalícia do falecido.
Sepultado ou cremado o corpo, a psiqué era conduzida por Hermes, deus psicopompo, até a barca de Caronte. recebido o óbolo, o robusto demônio da morte permitia a entrada da alma em sua barca, que a trasportava para além dos quatro temívies rios infernais, Aqueronte, Cocito, Estige e Piriflegetonte,. Já do outro lado, após passar pelo cão Cérbero, o que não oferecia grandes dificuldades, pois o que o monstro de três cabeças realmente vigiava era a saída, a psiqué enfrentava o julgamento. O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos. Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos mortos Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão.
Radamanto julgava os asiáticos e africanos; Éaco, os europeus. Em caso de dúvida, Minos intervinha e seu veredicto era inapelável.
Infelizmente quase nada se sabe acerc do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora na Eneida, 6,566-569. Vergílio nos fale, de passagem, que Radamento supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos.
Julgada, a alma passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro. Neste último eram lançados os grandes criminosos, mortais e imortais. Era o único local permanente do Hades: lá, supliciados pelas Erínias, ficavam para sempre os condenados, os irrecuperáveis. O mesmo Vergílio, ainda no canto 6, nos dá uma visão dantesca dos suplícios a que eram submetidos os réprobos e a natureza dos crimes por eles perpetrados. O grande poeta todavia, no que se refer às faltas graves cometidas, mistura habilmente "aos que espancaram os pais, aos avarentos, aos adúlteros, aos incestuosos, aos que desprezam os deuses", os condenados por crimes políticos... Estão no Tártaro os que "fizeram guerras civis, os desleais, os traidores, os que venderam a pátria por ouro e impuseram-lhe um senhor despótico..." É bom não perder de vista que, a par de ser um poema tardio, a Eneida é também uma obra assumidamente engajada e comprometida com a ideologia política do imperador Augusto, cuja pessoa, cuja família, que era de origem divina, cujo governo e cujas reformas o poeta canta, exalta e defende. No Tártaro vergiliano, os assassinos principais de César, Cássio e Bruto, e seus grandes inimigos políticos, como Marco Antônio e a egípcia Cleópatra, entre muitos outros, sem omitir os heróis gregos, inimigos do troiano Pai Enéias, fundador da raça latina, certamente formariam um inferninho à parte, com suplícios adequados... Talvez mais violentos do que os do inferno político da Divina Comédia de Dante.
O Érebo e os Campos Elísios são impermanentes: tra-se mais de compartimentos de prova do que de purgação. As provações aí realizadas servem de parâmetro de regressão ou de evolução e aperfeiçoamento, cuja natureza nos escapa. Quer dizer, a descida definitiva ao Tártaro ou a próxima (ensomátosis), "reencanação", ou ainda a próxima (metempsýkhosis), "metempsicose", que são coisas muito diferntes, dependeriam intrisecamente do "comportamento" da psiqué durante sua permanência no Érebo ou nos Campos Elísios. No Érebo estão aqueles que comenteram certas "faltas". Seria conveniente deixar claro que alguns habitantes temporários do Érebo, que Vergílio denomina lugentes campi, Campos de Lágrimas, não têm suas faltas especificadas e outros lá estão sem que possamos compreender o motivo. Recorrendo mais uma vez à Eneida 6, vamos ver que nos Campos das Lágrimas estão criancinhas que morreram prematurament; as vítimas de falso julgamento; as suicidas (o poema só fala em mulheres) por amor, como Fedra, Prócris, Evadne, Dido...
Alguns heróis, troianos (mirabile dictu !) também lá estão e heróis gregos igualmente.
O Poeta Latino, no entanto, deixa bem claro que essas almas não estão no Érebo por acaso, "sem o aresto de juízes, uma vez que Minos indagou de sua vida e de seus crimes". Onde se conclui que cometeram "faltas".
Do Érebo que é temporário, elas ou mergulharão no Tártaro, porque se pode regredir, ou subirão para outra impermanência, os Campos Elísios, único local de onde poderiam partir os candidatos à reencarnação ou à metempsicose.
Em se tratando do último nível ctônio, em que estão os poucos que lá conseguiram chegar, os Campos Elísios, em grego (Elýsia pedía) são descritos, ao menos na Eneida, 6, como uma paraíso terrestre em plena idade de ouro. Lá residem os melhores em opulentos banquetes nos gramados, cantando em coro alegres canções, nos perfumados bosques de loureiro. Lá estão os que já passaram por uma série de provas e purgações. Mas, decorridos mil anos, após se libertarem totalmente das "impurezas materiais", as almas serão levadas por um deus às águas do rio Lete e, esquecidas do passado, voltarão para reencarnar-se.
Eis aí uma visão da escatologia grega popular em suas linhas gerais, mas poder-se-ia perguntar: a quantas reencarnações se tinha direito? E depois de totalmente purificada das misérias do cárcere do corpo, qual o destino final da psiqué? À primeira pergunta talvez se pudesse responder evasivamente que o número de reencarnações se mediria pela paciência dos deuses (que certamente não era muito grande); e à segunda, dizendo-se que, via de regra, o céu grego era platonicamente a Via Láctea. Ao menos, que se saiba, a cabeleira de Berenice, e os imperadoes romanos, que morriam benquisisto do povo, eram transformados em astros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário