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quinta-feira, 14 de abril de 2011

OBSERVAÇÃO

A essência das coisas pode ser obtida mediante observação permanente e persistente dos grandes interessados. A flor se bem analisada, sabe-se o seu exalar,sua ternura,suas pétalas e seus espinhos.Uma pessoa observada atentamente pode ser compreendida,amparada,amada e bem recebida. Como anda tua observação?

sábado, 26 de março de 2011

Paulo testifica de Cristo em Roma



Lição 13 - Paulo testifica de Cristo em Roma
26 de março de 2011

Pr. Jairo Teixeira, comentarista da Lição Bíblica da CPAD Comentário da última lição bíblica do trimestre
Texto Bíblico: Atos 27.18-25

INTRODUÇÃO

Caro professor, este é o fim de mais um trimestre de Lições Bíblicas. É um período importante para fazermos uma reflexão do nosso magistério em Escola Dominical. Analise os métodos que você utilizou, questione se é adequado. Pergunte a turma de alunos sobre a eficácia de suas ministrações. Lembre, que os alunos são o alvo de toda estrutura da Escola Dominical de sua igreja.

A lição desta semana vai abordar acerca da viagem missionária do Apóstolo Paulo a Roma.

Professor, quando o Apóstolo do gentios alcançou, finalmente, o destino de sua terceira viagem missionária, ele logo retornou a Jerusalém (At 21.15). Porém, não levou muito tempo para que Paulo e seus companheiros tivessem problemas. Alguns judeus alegaram que ele, através de seus ensinos, tinha arruinado a Lei de Moisés e profanado o Templo, trazendo os gentios (At 21.27,28).

Foi então, que iniciou-se uma revolta no pátio do Templo, e Paulo foi salvo de linchamento pela intervenção do tribuno militar romano (At 21.31,32). O apóstolo foi mantido prisioneiro por mais de dois anos, e sofreu uma série de julgamentos em Jerusalém e Cesareia perante o Sinédrio, o procurador romano Félix, seu sucessor Festo, e diante do rei Agripa e sua esposa. No entanto, o apóstolo exerceu seu direito como cidadão romano de apelar a César, e foi enviado para Roma a fim de ser julgado.

No decorrer de uma longa viagem à cidade de Roma houve um naufrágio na ilha de Malta, mas, em fim, Paulo chegou salvo a Roma. Os crentes romanos lhe deram as boas vindas, e os judeus ouviram o evangelho (At 28.30,31). O apóstolo usou os dois anos de prisão em Roma para escrever a várias igrejas. As chamadas “cartas da prisão” pertencem a este período, são elas: Efésios (uma carta circular dirigida às igrejas asiáticas da região), Colossenses, Filemon (carta pessoal instruindo Filemon a receber de volta, na qualidade de irmão em Cristo Jesus, o escravo fugitivo)...

O IMPÉRIO ROMANO

No final da República, a cidade de Roma ostentava já a imponência de uma verdadeira capital de um império que dominava a totalidade do Mediterrâneo. Era, na altura, a maior cidade do mundo e provavelmente a mais populosa cidade já construída até o século XIX. Estimativas dos picos populacionais variam entre menos de 500.000 e mais de 3,5 milhões, embora valores mais populares pelos historiadores variem entre 1 milhão e 2 milhões. A grandeza da cidade aumentou com as intervenções de Augusto, que completou os projetos de César e iniciou os seus próprios, como o Fórum de Augusto, e o Ara Pacis (”Altar da Paz”), em celebração do período de paz vivido na altura (Pax Romana), redefinindo também a organização administrativa da cidade em 14 regiões. Os sucessores de Augusto tentaram prosseguir essa linha edificadora deixando as suas próprias contribuições na cidade. O grande incêndio de Roma, durante o reinado de Nero, iria destruir grande parte da cidade mas, por sua vez, iria permitir e impulsionar uma nova vaga do desenvolvimento edificador.

É no contexto deste período que se dá os acontecimentos envolvendo a vida e o ministério do apóstolo Paulo.

A SOCIEDADE ROMANA

Os principais grupos sociais que se construíram em Roma eram os patrícios, os clientes, os plebeus e os escravos.

* Patrícios: eram grandes proprietários de terras, rebanhos e escravos. Desfrutavam de direitos políticos e podiam desempenhar altas funções públicas no exército, na religião, na justiça ou na administração. Eram os cidadãos romanos.

* Clientes: eram homens livres que se associavam aos patrícios, prestando-lhes diversos serviços pessoais em troca de auxílio econômico e proteção social. Constituíam ponto de apoio da dominação política e militar dos patrícios.

* Plebeus: eram homens e mulheres livres que se dedicavam ao comércio, ao artesanato e aos trabalhos agrícolas. Apesar da conotação do nome, havia plebeus ricos.

* Escravos: Representavam uma propriedade, e, assim, o senhor tinha o direito de castigá-los, de vendê-los ou de alugar seus serviços. Muitos escravos também eram eventualmente libertados.

A ORIGEM DA IGREJA EM ROMA

Aos olhos humanos o evangelho não teria a mínima chance em Roma. O seu esplendor, imponência, poder e glória promoviam um certo ar de arrogância, prepotência e altivez. Parecia ser uma fortaleza intransponível em todos os sentidos.

O evangelho não chegou a Roma por intermédio de Paulo. Conforme Becker (2007, p. 468), o cristianismo expandiu-se do oriente para o ocidente. A origem dessa comunidade parece ser anterior a primeira missão de Paulo na Macedônia e na Grécia (At 16: 6-10), pois, em torno de 50 d.C., ele inicia uma amizade em Corinto (At 18:-4) com o casal Priscila e Áquila, provenientes de Roma. A comunidade de Roma seria, dessa forma, a primeira comunidade cristã que se teria notícias em solo europeu. Antes de 50 d.C. só havia cristãos na Palestina, Síria e Ásia Menor. Sendo assim, é provável que Roma tenha entrado em contato com o cristianismo por meio dessas regiões.

Stott (2003, p. 434) afirma que não se sabe como e quando o evangelho chegou a Roma e foi fundada uma igreja ali. Em seu comentário de Atos trabalha a hipótese de que alguns visitantes de Roma em Jerusalém por ocasião do Pentecoste (At 2:10) se converteram, e levaram o evangelho para casa. Seguindo essa hipótese, Pohl (1999, p. 19) escreve:

Na capital do império desenvolveu-se, no século I, o maior centro judaico do mundo antigo. Calcula-se que tivesse dezenas de milhares de membros. Foi possível comprovar a existência de pelo menos treze comunidades sinagogais na cidade. Mantinham um contato intenso com Jerusalém. As pessoas viajavam para lá e para cá como comerciantes, artesãos e, não por último, como peregrinos devotos (cf. At 2.10). Encaixa-se bem nesse quadro que nos cultos sinagogais em Roma aparecessem certo dia também judeus de Jerusalém que se haviam convertidos a Cristo. Confessaram sua fé, dando origem a um movimento cristão muito vivo. Desse modo o cristianismo em Roma originou-se da atuação de crentes para nós anônimos. No que concerne à época, caberá evidenciar em seguida que esses inícios remontam pelo menos já aos anos quarenta, ou seja, uma década inteira antes da primeira viagem missionária de Paulo. Não foi ele o primeiro missionário na Europa; nem foi em Filipos que se constituiu a primeira igreja européia.

A igreja em Roma era uma comunidade mista, constituída de judeus e gentios, onde o segundo grupo parecia prevalecer em número (Rm 1:5, 13; 11:13). Há sinais de conflitos entre os dois grupos, no que tudo indica, gerado por questões teológicas (Rm 14; 16:17-18) que envolvia o cristianismo judaizante e o cristianismo livre da lei (STOTT, 2007, p. 32-33).

O DESEJO DE PAULO DE VISITAR A IGREJA EM ROMA

O desejo de visitar Roma é algo manifesto nos escritos paulinos:

Porque não quero, irmãos, que ignoreis que, muitas vezes, me propus ir ter convosco (no que tenho sido, até agora, impedido), para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre os outros gentios. (Rm 1:13)

Essa foi a razão por que também, muitas vezes, me senti impedido de visitar-vos. Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões e desejando há muito visitar-vos, penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia. Mas, agora, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém. Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores; porque, se os gentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem também servi-los com bens materiais. Tendo, pois, concluído isto e havendo-lhes consignado este fruto, passando por vós, irei à Espanha. E bem sei que, ao visitar-vos, irei na plenitude da bênção de Cristo. Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos; a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco. (Rm 15:22-32)

No texto acima podemos verificar algumas questões:

- O claro interesse de Paulo em visitar a igreja em Roma;

- O plano de Paulo que incluía uma viagem a Espanha, onde de passagem visitaria a igreja em Roma, isso após passar por Jerusalém e deixar lá uma oferta levantada na Macedônia e na Acaia para os pobres dentre os santos;

- A confiança de que chegaria em Roma debaixo da bênção e pela vontade de Deus, para alegremente recrear-se com os irmãos;

- A consciência de que poderia enfrentar dificuldades em Jerusalém entre os “rebeldes”, conforme fica claro em Atos 20:22-24:

E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.

O Espírito Santo sempre nos avisa e nos prepara para enfrentarmos as adversidades. Mesmo sabendo que iria sofrer nas mãos de seus adversários (sempre haverá adversários em nossa jornada ministerial e cristã), Paulo não se acovardou, não abriu mão de cumprir o propósito de Deus para a sua vida.

Chegando em Jerusalém, Paulo foi recebido com alegria pelos irmãos (At 21:17-19), que em seguida expressaram uma preocupação pelos boatos espalhados por alguns judeus convertidos (At 21:20-22). Na sequência dos fatos, Lucas (At 21:27-26:32) nos narra toda a oposição, prisão, interrogatórios e a decisão de Paulo em apelar para ser julgado em Roma (At 25:11-12; 26:32).

A esta altura é interessante deixar claro que o desejo de ir a Roma não era um mero capricho de Paulo. Tudo fazia parte de um propósito divino. Durante aqueles momentos difíceis, o Senhor Jesus deixou claro para Paulo que tudo estava sob o seu controle e debaixo da sua vontade:

Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma. (At 23:11)

Jesus disse numa visão que Paulo chegaria em Roma para lá testemunhar. Havia propósito. Você continua tendo visões espirituais e diretivas da parte de Deus? Jesus já disse onde você chegará? Disse onde pregará? Disse onde irá pastorear? Disse onde irá servi-lo? Fique certo que isso acontecerá. Basta apenas que você permaneça na vontade dele. Esse negócio “importa” para ele. Coragem!

A VIAGEM DE PAULO A ROMA

Os detalhes que envolve a viagem de Paulo a Roma estão narrados em Atos 27:1-28:31. Foi uma viagem repleta de imprevistos e perigos.

Entre os acontecimentos neste período destacam-se:

- O vento contrário que enfrentaram nas proximidades de Creta (27:7);

- As “advertências” (gr. parenei, admoestação, recomendação. O verbo no imperfeito indica uma ação que foi contínua) de Paulo (27:9-10) quanto aos perigos da viagem, que foram ignoradas pelo centurião que conduzia o grupo de prisioneiros (27:11). A experiência de Paulo com viagens marítimas de Paulo não foi considerada (2 Co 11.25);

- O tufão (gr. typhonikos), chamado Euroaquilão, termo composto por euros, o vento leste, e aquilo, do latim, o vento “norte” (STOTT, 2003, p. 439; KISTEMAKER, ibidem, p. 569, cf. Atos 27:14-20), que arrastou o navio com violência (v.15), deixando-o à deriva (v. 17). O navio podia estar à deriva, mas a vida e o destino de Paulo estavam na direção certa.

- A visão que Paulo teve durante a noite, em pleno navio, sobre a proteção de Deus naquelas circunstâncias (27:21-26). Diante do desespero e da ansiedade que tomou conta daqueles que estavam no navio, a postura firme e sóbria de Paulo fez a diferença. “Tenham bom ânimo”, “não temas”, foi a palavra de Paulo, firmada na promessa que lhe foi renovada de que ele chegaria à Roma, e de que nenhum daqueles que com ele se encontrava se perderia (27:24).

- Os milagres em Malta, onde ficou imune ante a picada de uma víbora (28:3-6), e onde orou pela cura do pai de Púbio e pelos enfermos da ilha(28:7-9). E meio às tribulações sofridas pela causa do evangelho ,Deus nos usa e nos honra para a glória dele (28:10).

- A chegada em Siracusa (28:12). A passagem por Régio e a chegada em Putéoli (28:13), um porto na baía de Nápoles, que fica a cerca de 193 km ao sul de Roma, onde de lá se chegava à Roma caminhando cerca de cinco dias. Nos tempos de Paulo, era um porto bem movimentado que vivia do comércio conduzido por Roma com o resto do mundo habitado. Alguns crentes que residiam em Putéoli foram se encontrar com Paulo. A comunidade cristã nessa cidade portuária pode ter surgido simultaneamente com a de Roma, quer seja por parte daqueles que retornaram de Jerusalém depois do Pentecoste por este porto (At 2:10), ou durante a expulsão dos judeus por Cláudio em 49 d.C. Paulo permaneceu a convite dos irmãos por sete dias em Putéoli, para em seguida se dirigir para Roma (KISTEMAKER, ibidem, p. 607-608).

Vento contrário, tufão, naufrágio, víbora, qualquer outro tipo de adversidade, obstáculo, impecilho ou barreira, não podem frustrar os planos de Deus para a nossa vida.

PAULO EM ROMA

Em Roma, após ser entregue ao general de dos exércitos, Paulo foi autorizado a morar sozinho, ficando sob a guarda de um soldado (28:16) e com correntes (28:20). Após três dias de sua chegada, Paulo convocou os principais dos judeus para expor a sua causa e testemunhar de Jesus. A sua fala e testemunho provocou uma grande contenda entre eles, pois alguns creram e outros não (28:17-29). Kistemaker (ibidem, p. 612) relata que:

Com base na informação fornecida pelos historiadores romanos e judeus (Suetônio, Tácito e Josefo), nós podemos estimar que uns 40 mil judeus viviam na cidade imperial na metade do século 1º. Pelas inscrições, sabemos que havia pelo menos dez sinagogas em Roma com líderes influentes. Esses líderes, então, se encontraram com Paulo para ouvirem-no sobre a razão de sua prisão.

Sobre os fatos que levaram Paulo a ser preso os líderes judeus nada sabiam (28:21). Sobre a Igreja (designada por eles de seita), afirmaram que em toda parte se falava contra ela (28:22). Foi dessa forma que a porta se abriu, para que em Paulo se cumprisse o propósito de Jesus.

A melhor estratégia de evangelização é aquela que o Senhor nos dá. Como o Senhor é tremendo! Os primeiros em Roma que ouviram o testemunho sobre Jesus dado por Paulo foram os líderes judeus, onde alguns creram (28:24). Quando líderes religiosos, políticos ou de qualquer outro segmento são alcançados pelo evangelho, ao se converterem acabam influenciando de alguma forma os seus liderados.

Paulo alugou umas casa, onde por dois anos recebia os irmãos que iam vê-lo (28:30). O livro de Atos termina relatando o trabalho de Paulo com o seguinte texto: “pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (28:31).

Kistemaker (ibidem, p. 626), faz uma excelente observação ao chamar a prisão domiciliar de Paulo de “Central de Missões”, e trabalha com a hipótese de que alguns soldados que vieram a fazer a guarda de Paulo acabaram sendo evangelizados e se convertendo. Dessa forma, continua Kistemaker, estes soldados ao serem transferidos para outras atividades e localidades acabavam se tornando missionários, evangelizando e testemunhando para os seus oficiais, outros soldados, presos e familiares.

Stott (2003, p. 454-455) vai mais além e afirma crer que Paulo compareceu diante de Nero, se cumprindo assim a promessa de Jesus de ele chegar a Roma (23:11), e a segunda promessa de comparecer perante César (27:24), onde proclamou a Cristo fielmente na corte mais prestigiada do mundo, à pessoa mais prestigiada do mundo.

Lucas conclui o livro sem relatar a liberação de Paulo, as demais viagens que realizou, o seu segundo encarceramento, as epístolas escritas na prisão e sua morte. Duas correntes mais fortes, dentre algumas outras, existem sobre o fato:

- A primeira é a de que Paulo foi julgado e inocentado, ou o governo romano abriu mão do processo contra ele (SHERWIN-WHITE, p. 118-119 apud MARSHALL, 1982, p. 396). Stott (ibidem, p. 456-457) segue essa linha, alegando que as cartas pastorais evidenciam isso, e que ele reassumiu suas viagens por mais dois anos, antes de ser preso novamente, julgado, condenado e executado em 64 d.C.

- A segunda é a possibilidade de que Paulo foi julgado e executado a esta altura (final dos dois anos), mas que Lucas não quis registrar o seu martírio, visto que já dera indicações indiretas no decurso da narrativa de Atos 20:23-25; 38; 21:13; 23:11; 27:24 (Ibidem). Marshall considera o destino de Paulo aqui como uma questão secundária, e termina seu comentário com a declaração de que: “nada que os homens são capazes de fazer é suficiente para impedir o progresso e vitória final do evangelho”. BOOR (ibidem, p. 370) diz que o destino de Paulo, diante do cumprimento das promessas e da pregação e testemunho do evangelho em Roma “não tem importância”.

CONCLUSÃO

Neste caminhar ao destino que o Senhor estabeleceu para nós, nem sempre a forma e as circunstâncias são as que idealizamos ou planejamos. Pensamos de um jeito e Deus faz de outro. O jeito que Ele faz é sempre o melhor, mesmo que a princípio fiquemos confusos e até com dúvidas, mesmo que implique em grande sofrimento e tribulação para nós.Não nos preocupemos como vamos chegar. Apenas confiemos e esperemos Nele. Chegaremos e realizaremos a Sua vontade e propósito! Coragem! Ânimo!

REFERÊNCIAS

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri, SP. Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.

BECKER, J. Apóstolo Paulo: vida, obra e teologia. São Paulo: Academia Cristã, 2007.

BOOR, Weiner de. Atos dos Apóstolos. Curitiba-PR: Esperança, 2003.

KISTEMAKER, Simon. Atos. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v.1

MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1982.

Estudo pelo Pr. Altair Germano-RJ.\ Pr. Jairo Teixeira-AL.-EBD.-2011.

sábado, 19 de março de 2011

As viagens missionárias de Paulo

Lição 12 – As viagens missionárias de Paulo
19 de março de 2011


Pr. Jairo Teixeira, comentarista da Lição Bíblica da CPAD
Leitura Bíblica em Classe: Atos 13.1-5; 46-49

INTRODUÇÃO

Vamos acompanhar o apóstolo Paulo em suas viagens missionárias. A igreja primitiva alcançou o mundo de sua época, cumpriu o seu papel, em aproximadamente 30 anos. E nós? Será que estamos fazendo a nossa parte? Podemos orar por missões, podemos contribuir para missões e podemos ir fazer missões. Atos 1.8 continua ecoando aos nossos ouvidos. É o que a lição deste fim de semana nos convida a fazer.

PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA VIAGENS

Na primeira viagem, Paulo passa em Salamina e Pafos, onde encontra Elimas o encantador (At13.4-12) acontece a conversão do Proconsul (At 13.12). Paulo tem seu nome mudado (At 13.9), João Marcos deixa Paulo e volta pra Jereusalém (At 13.13), Paulo é apedrejado em Listra (At 14.19), Derbe, a última cidade a ser visitada (At 14.20) e volta pra casa (At 14.21-26).

Na segunda viagem, Paulo visita as igrejas na Síria e Cilícia (At 15.41). Em Derbe e Listra Timóteo se integra ao grupo(At16.1-3), Paulo visita a Frigia na Galácia(At16.6), Em Troade Paulo tem uma visão(At16.9), A conversão de Lídia e do Carcereiro em Filipos(At16.13-34), Paulo funda a igreja de Tessalônica(At17.1,4), Paulo prega em Atenas(At17.16-33), e volta a Antioquia(At18.2).

Na terceira viagem Paulo passa por Éfeso, livros de magia são queimados, e os artífices ficam com raiva(At19.19-30), Paulo ainda visita a macedônia e a Grecia(At20.1,2), Paulo ainda se defende perante o rei Agripa(At26.1-29), sofre um naufrágio em sua ida a Roma(At27.26-44), passa pela ilha de Malta(At28.16), prega em Roma, cumpre o seu ministério e termina sua carreira.

Amados, “Nenhuma pessoa, exceto Jesus, deu forma à história do cristianismo como o apóstolo Paulo.“ E Deus continua convocando vidas que queiram se envolver com missões.(Is6.8) As Missões estão profundamente enraizadas nas Escrituras, sendo portanto, parte da natureza da igreja. Somente a igreja tem o que o mundo necessita; o pão para saciar a fome espiritual, que é Jesus Cristo; ela é o exército de mordomos de Deus.

O PERFIL DE UM AUTÊNTICO MISSIONÁRIO

1.É UM SERVIDOR DA OBRA EM QUALQUER CIRCUNSTÂNCIA

* Ele serve na obra do Senhor com toda disciplina espiritual - Atos 13.2a...E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo...Efésios 6.7 Servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens.

* Ele entende que o seu ministério precisa ser reconhecido - Atos 13. 3 - Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. I Timóteo 1.12 E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério;

* Ele não impõe a sua vontade, mas acata a orientação divina – Atos 13.4 - E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. I Coríntios 9.17 Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!

2. É PRUDENTE EM AGUARDAR O TEMPO DA SUA SEPARAÇÃO

* Ele sabe que a obra missionária é do Espírito Santo - Atos 13b...Apartai-me a Barnabé e a Saulo...Atos 16.6 E, passando pela Frígia e pela província da Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia.

* Ele sabe que a grande comissão exige determinação - Atos 13.5 - E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de DEUS nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João como cooperador. 2 Timóteo 1.9 Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos;

* Ele sabe agir com autoridade diante das controvérsias - Atos 13.46 - Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de DEUS; mas, visto que a rejeitais, e vos não julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios 2 Timóteo 2.23 E rejeita as questões loucas, e sem instrução, sabendo que produzem contendas.

3. É CONSCIENTE DA RESPONSABILIDADE DO SEU CHAMADO

* Tem consciência de que deve cumprir seu respectivo chamado - Atos 13c...para a obra a que os tenho chamado.... I Tessalonicenses 3.3 Para que ninguém se comova por estas tribulações; porque vós mesmos sabeis que para isto fomos ordenados,

* Tem consciência da importância e extensão do seu chamado - Atos 13.47 - Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, para que sejas para salvação até aos confins da terra. Filipenses 1.23 Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.

* Tem consciência que muitas almas dependem do seu chamado - Atos 13.48 - E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna. Atos 18.10 Porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.

CONCLUSÃO

• Alguns teólogos consideram que, ao todo, Paulo realizou quatro viagens missionárias, levando-se em conta que, ao ser enviado preso para Roma, aproveitou a oportunidade, em todos os lugares em que o navio aportava, para pregar o Evangelho. A prova disso está na grande obra realizada na Ilha de Malta, onde ganhou todos os seus moradores para Jesus.

• Assim, como podemos observar, o apóstolo Paulo realizou todas as viagens sob a égide do Espírito Santo, pois quando viajava para Bitínia, a Terceira Pessoa da Trindade o constrangeu a seguir para a Macedônia, momento em que se iniciou a evangelização da Europa. Como resultado disso, o Evangelho chegou até nós.

• At 13:1-3 – Um dos maiores empreendimentos do mundo são as missões estrangeiras e, aqui, temos o início dessa grande obra. A ideia originou-se exatamente como devia: Numa reunião de oração.

• Paulo, por tudo o que sofreu durante o exercício do seu ministério como apóstolo dos gentios, tornou-se o modelo para todos nós. Agora, basta descruzarmos os braços, orarmos, buscarmos a direção divina e realizarmos a obra que o Senhor Jesus nos confiou, desde o momento em que O aceitamos como nosso Salvador.

FONTES DE CONSULTA

1) Neves, Mário - Atos dos Apóstolos - Comentário Prático - Casa Editora Presbiteriana

2) Enciclopédia da Bíblia – Editora Cultura Cristã

3) Estudo Pr. Geraldo Filho\ Pr. Adilson Guilhermel\Pr. Jairo Teixeira Rodrigues-2011

Pr. Jairo Teixeira Rodrigues

sábado, 5 de março de 2011

Inferno Em Várias Religiões




Inferno Em Várias Religiões
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Inferno é um termo usado por diferentes religiões, mitologias e filosofias, representando a morada dos mortos, ou lugar de grande sofrimento e de condenação. A origem do termo é latina: infernum, que significa "as profundezas" ou o "mundo inferior".

Origem
A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se das palavras Hades e Sheol, ambas com mesmo significado, tendo conotação clara de um lugar para onde os mortos vão. Em versículos bíblicos onde se menciona tais palavras, é possível perceber que se trata de um só lugar. Com o passar do tempo, muitas religiões interpretaram o inferno, como o destino de apenas alguns; pessoas que não assumiram uma conduta louvável no ponto de vista religioso, e que por isso, foram condenadas ao sofrimento jamais visto pelo mundo material.[1] Alguns teólogos observaram, contraditóriamente, que o inferno não poderia ser um lugar desagradável, afirmando que um personagem bíblico que estava em sofrimento no mundo real, almejou “esconder-se no inferno”, para aliviar sua dor. Porém, o próprio Jesus fez uma narrativa de uma situação de uma pessoa que se encontrava no inferno, essa pessoa implorava a Abraão que mandasse um conhecido que não estava no inferno lhe refrescasse a língua com pelo menos a ponta do dedo molhado em água, pois em chamas era atormentado (Ver Lucas, capítulo 16, versículos de 19 ao 31).[2] Obviamente tal relato não foi em sentido literal, pois uma gota de água não alivia dor de quem está em chamas ou num calor intenso, mas queria dizer que pelo enorme sofrimento precisaria aliviar-se de qualquer jeito. A crença na existência de um lugar de tormento para o significado das palavras Hades e Sheol, foi muitas vezes confundida com a palavra “Geena”, traduzida para “lago de fogo”, uma forma simbólica para destruição eterna. Alguns teólogos concluem que todos que morrem vão para o inferno (Hades e Sheol), lugar onde até o próprio Jesus foi, a sepultura, sua câmara mortuária. Como a própria Bíblia menciona, ele não foi esquecido no Inferno, foi ressuscitado no terceiro dia conforme relata os evangelhos. Porém deve-se salientar que outros teólogos veem que essa ida de Cristo ao lugar de tormento foi para tomar o lugar de cada ser humano que estava destinado à morte eterna pelo pecado original de Adão, e sendo Jesus tido como o consumador da fé serviu de cordeiro expiatório apesar de não ter visto corrupção.
Mitologia grega
Na mitologia grega, as profundezas correspondiam ao reino de Hades, para onde iam os mortos. Daí ser comum encontrar-se a referência de que Hades era deus dos Infernos. O uso do plural, infernos indica mais o caráter de submundo e mundo das profundezas do que o caráter de lugar de condenação, em geral dado pelo singular, inferno. Distinguindo o lugar dos mortos - o Hades - a mitologia grega também concebeu um lugar de condenação ou de prisão, o Tártaro.
A Grolier Universal Encyclopedia(Enciclopédia Universal Grolier, 1971, Vol. 9, p. 205), sob “Inferno”, diz:
“Os hindus e os budistas consideram o inferno como lugar de purificação espiritual e de restauração final. A tradição islâmica o considera como um lugar de castigo eterno.” O conceito de sofrimento após a morte é encontrado entre os ensinos religiosos pagãos dos povos antigos da Babilônia e do Egito. As crenças dos babilônios e dos assírios retratavam o “mundo inferior . . . como lugar cheio de horrores, . . . presidido por deuses e demônios de grande força e ferocidade”. Embora os antigos textos religiosos egípcios não ensinem que a queima de qualquer vítima individual prosseguiria eternamente, eles deveras retratam o “Outro Mundo” como tendo “covas de fogo” para “os condenados”. — The Religion of Babylonia and Assyria (A Religião de Babilônia e Assíria), de Morris Jastrow Jr., 1898, p. 581; The Book of the Dead (O Livro dos Mortos), com apresentação de E. Wallis Budge, 1960, pp. 135, 144, 149, 151, 153, 161, 200.
Judaísmo
No judaísmo, o termo Gehinom (ou Gehena) designa a situação de purificação necessária à alma para que possa entrar no Paraíso - denominado por Gan Eden. Nesse sentido, o inferno na religião e mitologia judaica não é eterno, mas uma condição finita, após a qual a alma está purificada. Outro termo designativo do mundo dos mortos é Sheol, que apresenta essa característica de desolação, silêncio e purificação.
A palavra vem de Ceeol, que mais tarde dá origem ao termo sheol, não confundindo com "Geena" que era o nome dado a uma ravina profunda ao sul de Jerusalém, onde sacrifícios humanos eram realizados na época de doutrinas anteriores. Mais tarde, tornou-se uma espécie de lixão da cidade de Jerusalém, frequentemente em chamas devido ao material orgânico. O uso do termo Sheol indica lugar de inconsciência e inexistência, conforme o contexto nos mostra e não um lugar de punição.
Cristianismo
No Cristianismo existem diversas concepções a respeito do inferno, correspondentes às diferentes correntes cristãs. A idéia de que o inferno é um lugar de condenação eterna, tal como se apresenta hoje para diversas correntes cristãs, nem sempre foi e ainda não é consenso entre os cristãos. Nos primeiros séculos do cristianismo, houve quem defendesse que a permanência da alma no inferno era temporária, uma vez que inferno significa "sepultura", de onde, segundo os Evangelhos, a pessoa pode sair quando da ressurreição. Essa idéia é defendida hoje por várias correntes cristãs.
, Adventismo
Na criação da humanidade, a união do pó da terra com o fôlego de vida produziu uma criatura ou alma vivente. Adão não recebeu uma alma como entidade separada; ele tornou-se alma vivente (Gn. 2:7). Na morte, ocorre o inverso: o pó da terra menos o fôlego de vida resulta numa pessoa morta ou alma morta, sem qualquer grau de consciência (Sl. 146:4; Ec. 9:5,6). Os elementos que haviam composto o corpo retornam à terra de onde haviam provindo (Gn. 3:19), enquanto que fôlego de vida volta a Deus, que o deu (Ec. 12:7). Cabe lembrar que na Bíblia, o termo hebraico e grego para 'espírito' (ruach e pneuma, repectivamente) NÃO se referem a uma entidade inteligente, capaz de existência consciente à parte do corpo. Ao contrário, esses termos se aplicam ao 'fôlego de vida' - o princípio vital da existência que anima seres humanos e animais. (baseado no livro 'Nisto Cremos' - Ensinos Bíblicos dos Adventistas do Sétimo Dia - download: http://www.cpb.com.br/arqs/nc/NC.pdf)
Assim sendo, fica evidente que os mortos dormem na sepultura num estado de insconsciência (Jó 14:12; Mt. 27:52; I Co. 15:51; I Ts. 4: 13-15), logo não estão em alguma habitação intermediária.
Todos aguardam a segunda vinda de Cristo, quando então os salvos serão ressuscitados e reinarão com Jesus durante mil anos (1 Tess. 4:15-18; 2 Corintios 4:14, Apocalipse 20:6). Depois desse período, os ímpios ressuscitarão para o Juízo final (Apocalipse 20:5-9). Então cairá fogo e enxofre do Eterno Deus para purificar a Terra (2 Pedro 3:10-12). Esse fogo queimará tudo (Isaias 33:12; Malaquias 4:1). Satanás, seus anjos e os ímpios também serão aniquilados. Jesus e seu povo fiel reinará para sempre na Nova Terra (Apocalipse 21:1-5). Nos textos originais, o significado da palavra inferno está associado à total inconsciência dos mortos na sepultura.
Por fim, é interessante notar que em Mateus 25 e Apocalipse 14, as palavras traduzidas por "eterno" e "séculos dos séculos" não significam necessariamente sem fim. As palavras gregas aion e aionios expressam duração enquanto a natureza do objeto permite. Por exemplo, em Judas 7 registra que as cidades de Sodoma e Gomorra estão sofrendo o fogo do castigo eterno (aionios) Mas 2 Pedro 2:6 diz que elas foram reduzidas a cinzas, tanto que é facilmente verificável que tais cidades não estão mais queimando em chamas. Quando o objeto das palavras "eterno" ou "para sempre" é a vida dos remidos que recebem imortalidade, a palavra significa um tempo sem fim. Quando se refere ao castigo dos ímpios, que não recebem a imortalidade, a palavra tem o significado de um período limitado de tempo. (baseado na Lição da Escola Sabatina - Jan/Mar 2009 - Casa Publicadora)
Catolicismo
Para a corrente católica, conduzida pela Igreja Católica Apostólica Romana, o inferno é eterno e corresponde a um dos chamados novíssimos: a morte, o juízo final, o inferno e o paraíso.
Protestantismo
Para muitas das denominações protestantes, o inferno é o local destituido da presença de Deus, porém não lhe está oculto, sendo que no cumprir das profecias esse inferno será lançado no lago que arde com fogo e enxofre.
A interpretação bíblica protestante afirma que, após a morte, a alma, uma vez no inferno, não poderá mais sair, assim como em relação ao paraíso (céu), não existindo forma de cruzar a fronteira que separa estes dois locais.
Há ainda outra visão dentro do cristianismo não-católico, que coloca a morte como um sono, um estado sem consciência (Eclesiastes 9:5; Jó 14:21; João 11:11-14), de forma que, conseqüentemente, os ímpios mortos não estão no inferno nem os salvos mortos no céu, mas aguardando a segunda vinda de Cristo, quando então os salvos entrarão para o céu, que é eterno, e os ímpios entrarão no lago de fogo, o inferno, (Apocalipse 20:15), que também será eterno (Miquéias 4:3). Segundo esta interpretação, o inferno é um lugar preparado para a punição de Satanás, seus anjos e seus seguidores (Mateus 25:41), ao contrário da visão comum que coloca Satanás como dominante do inferno.
Testemunhas de Jeová
Para as Testemunhas de Jeová, O inferno de fogo como lugar literal de tortura das pessoas iníquas é rejeitado. Citam na Bíblia, os termos normalmente traduzidos por "inferno", Hades (Bíblia) [termo grego] e Seol [ou Sheol, termo hebraico], significando "sepultura" ou "lugar dos mortos". Também no caso de Geena [termo grego] com a ideia de destruição e aniquilação eterna.(Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas). Citam Atos 2:27, onde Jesus desceu ao Inferno (Hades ou Seol) e foi ressuscitado . As Testemunhas de Jeová acreditam que após a ressurreição dos mortos, os pecados anteriores não lhes serão imputados, mas poderão recomeçar a vida escolhendo voluntariamente servir a Deus e alcançar assim a salvação.
Consulte também: Alma, Morte e a Ressurreição
Espiritismo
O inferno, segundo a visão do Espiritismo, é um estado de consciência da pessoa que incorre em ações contrárias às estabelecidas pelas Leis morais, as quais estão esculpidas na consciência de cada pessoa.
Uma vez tendo a criatura a sua consciência “ferida”, passa a viver em desajuste mais ou menos significativo de acordo com o grau de gravidade de suas ações infelizes, e se estampam através de desequilíbrios Espiritual, emocional, psicológico ou até mesmo orgânico. Esta situação lhe causa terríveis dissabores.
Uma vez morta, se a criatura não evitou ações infelizes, buscando vivência saudável de acordo com as leis divinas, ela segue para o Plano Espiritual ou incorpóreo. Lá, junta-se a outros espíritos, que trazem conturbações conscienciais semelhantes. Afins, atraem afins.
Os Planos Espirituais de sofrimentos são inumeráveis e, guardam níveis de sofrimentos diferenciados, cujos níveis são estabelecidos pelos tipos de degradação da consciência, resultantes das ações perpetradas por cada criatura.
Portanto o Inferno na visão espírita, como região criada por Deus para sofrimento eterno da criatura e geograficamente constituído, não existe. Se um dia todas estas criaturas sofredoras na erraticidade regenerarem-se, estas regiões deixarão de existir. É como se todos os pacientes de um manicômio terrestre fossem curados; o hospital poderia ser demolido e ceder o seu espaço a um jardim, etc.
Deus não imputa pena eterna a nenhum de seus filhos. Podem Sofrer, enquanto não despertarem para o Bem e se proporem a trilhar o reto caminho. Um dia mais cedo ou mais tarde Ele, O Criador, na Sua Misericórdia e Amor, concederá à criatura sofredora retorno à carne para continuar o seu aprendizado e aperfeiçoamento.
Estes conceitos são encontrados em O Livro dos Espíritos editado em Abril de 1857 na sua quarta parte e, no livro O Céu E O Inferno editado em 1865. Ambas obras tendo como autor, Allan Kardec.
Islamismo
No Islã, o inferno é eterno, consistindo em sete portões pelos quais entram as várias categorias de condenados, sejam eles muçulmanos injustos ou não-muçulmanos. Como na crença judáica, para o islamismo o inferno também é um lugar de purificação das almas, onde aqueles que, se ao menos um dia de suas vidas acreditaram que Deus (Allah) é único, não Gerou e nem Foi gerado, terão suas almas levadas ao Paraíso um dia. Não raro, é comum a crença de que no Islã o castigo é eterno, por ter bases fundamentalistas de alguns praticantes, pelo fato de o Alcorão mencionar diversas vezes a palavra castigo e sofrimento no fogo do inferno. Porém é fato que o mesmo Texto deixa claro que existem condições para se pagar os pecados e sofrer as consequencias, como também existem meios de se alcançar o perdão para o não banimento ao inferno por meio de aplicações de condutas que condizem com os bons costumes e a maneira de enxergar Deus, a vida e a forma de como deverá cada ser conduzi-la, a ponto de pagarem seus pecados post mortem, ou alcançarem a graça do perdão Divino.
Budismo
De certo modo, todo o samsara é um lugar de sofrimento para o budismo, visto que em qualquer reino do samsara existe sofrimento. Entretanto, em alguns reinos, o sofrimento é maior correspondendo à noção de inferno como lugar ou situação de maior sofrimento e menor oportunidade de alcançar a liberação do samsara. Por esse motivo, muitas vezes expressam-se esses mundos de sofrimento maior como infernos. Nenhum renascimento em um inferno é eterno, embora o tempo da mente nessas situações possa ser contado em eras.
Contam-se dezoito formas de infernos, sendo oito quentes, oito frios e mais dois infernos que são, na verdade, duas subcategorias de infernos: os da vizinhança dos infernos quentes e o infernos efêmeros. Além desses dezoito que constituem o "Reino dos Infernos", pelo sofrimento, o "Reino dos Fantasmas Famintos" é comparável à noção de inferno, sendo constituído de estados de consciência de forte privação - como fome ou sede - sem que haja possibilidade de saciar essa privação.
No budismo, o renascimento em um inferno é uma conseqüência das virtudes e não-virtudes praticadas, de acordo com a verdade relativa do karma. Entretanto, alguns poucos atos podem, por si, conduzir a um renascimento nos infernos, principalmente o ato de matar um Buda e o ato de matar o próprio pai ou a própria mãe. A meditação sobre os infernos deve gerar compaixão.
Inferno como arquétipo contemporâneo
A fusão entre paixão, desejo, pecado e condenação envolvida na imagem do Inferno permitiram ao imaginário contemporâneo imaginar antes lugar de prazer e de servidão ao prazer do que propriamente de sofrimento ou purificação. O fenômeno é bem observado na cultura cristã que, no seguimento dos esforços aplicados às ideias de purificação do monoteísmo, condenou as divindades mais materiais da fertilidade, das paixões e da energia sexual, o que literalmente as transformou em demônios. Assim, os arquétipos da paixão e do prazer ficaram associados ao do inferno, com a conseqüente mudança de sentido e de atração sobre a imaginação.
Outras correntes de pensamento actuais, curiosamente também com base na cultura católica-cristã, demonstram a sua opinião de inferno não como um local físico, mas antes como um estado de espírito, indo ao encontro da ideia preconizada por diversas correntes filosófico-religiosas partidárias da reencarnação.
Mudanças no Sentido da Palavra Inferno
O Dicionário Expositivo de Palavras do Velho e do Novo Testamento diz a respeito do uso de inferno para traduzir as palavras originais do hebraico Sheol e do grego Hades (Bíblia): Hades . . . Corresponde a Sheol no Antigo Testamento. Na Versão Autorizada do A.T. e do N. T., foi vertido de modo infeliz por Inferno.[3]
A Enciclopédia da Collier diz a respeito de Inferno: Primeiro representa o hebraico Seol do Antigo Testamento, e o grego Hades, da Septuaginta e do Novo Testamento. Visto que Seol, nos tempos do Antigo Testamento, se referia simplesmente à habitação dos mortos e não sugeria distinções morais, a palavra ‘inferno’, conforme entendida atualmente, não é uma tradução feliz.[4]
O Terceiro Novo Dicionário Internacional de Webster diz: Devido ao entendimento atual da palavra inferno (Latim Infernus) é que ela constitui uma maneira tão infeliz de verter estas palavras bíblicas originais. A palavra inferno não transmitia assim, originalmente, nenhuma idéia de calor ou de tormento, mas simplesmente de um lugar coberto ou oculto (de . . . helan, esconder).[5]
A Enciclopédia Americana diz: Muita confusão e muitos mal-entendidos foram causados pelo fato de os primitivos tradutores da Bíblia terem traduzido persistentemente o hebraico Seol e o grego Hades e Geena pela palavra inferno. A simples transliteração destas palavras por parte dos tradutores das edições revistas da Bíblia não bastou para eliminar apreciavelmente esta confusão e equívoco.[6]
O significado atribuído à palavra inferno atualmente é o representado em A Divina Comédia de Dante[7], e no Paraíso Perdido de Milton[8], significado este completamente alheio à definição original da palavra. A idéia dum inferno de tormento ardente, porém, remonta a uma época muito anterior a Dante ou a Milton.
Segundo as mais variadas mitologias
O Inferno, recebe várias versões nas mais variadas mitologias:
• Di Yu, o inferno da mitologia chinesa;
• Hades, o inferno da mitologia greco-romana;
• Helgardh, o inferno da mitologia nórdica;
• Mundo dos mortos, o inferno da mitologia egípcia;
• Mag Mell, o inferno da Mitologia irlandesa;
• Ne no Kuni e Yomi no Kuni, os infernos da mitologia japonesa.
Referências
1. ↑ Cambridge, 1811, p. 148. A Translators Handbook on the Book of Jonah (Manual do Tradutor Para o Livro de Jonas), 1978, p. 37. Encyclopædia Britannica (Enciclopédia Britânica; 1971, Vol. 11, p. 276).
2. ↑ Bíblia Sagrada. Traduzida em português por J. F. Almeida. R.A. 2ªed. SBB
3. ↑ Vine’s Expository Dictionary of Old and New Testament Words (Dicionário Expositivo de Palavras do A.T. e do N.T., de Vine, 1981, Vol. 2, p. 187)
4. ↑ A Collier’s Encyclopedia (Enciclopédia da Collier, 1986, Vol. 12, p. 28)
5. ↑ O Webster’s Third New International Dictionary (Terceiro Novo Dicionário Internacional de Webster)
6. ↑ The Encyclopedia Americana(Enciclopédia Americana, 1956, Vol. XIV, p. 81)
7. ↑ A Divina Comédia de Dante
8. ↑ PARAÍSO PERDIDO (1667) John Milton (Inglaterra/1608 - 1674)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Agir contra O destino (professor Antônio Medina)

É possível lutar contra o nosso destino? Exercemos alguma influência sobre o acaso? Tais questionamentos compõem o discurso de Antonio Medina Rodrigues, que contrapõe o conceito de "fatalidade" ao "conjunto universal de transformações". Este último seria formado pelos seguintes elementos: acaso, surpresa, imprevisão e práxis humana. Para o especialista em tragédia grega, seria um equívoco pensar que o homem nada pode fazer contra o desígnio divino. "Este foi o primeiro grito de liberdade do ocidente: a libertação pelo êxtase. Viver sem levar em conta as determinações divinas". Antonio Medina Rodrigues: professor de Língua e Literatura Grega da USP, tradutor, ensaísta e poeta. Autor de As Utopias Gregas, Idéias e Canto do Destino e Outros Cantos é também o responsável pela edição da tradução de Odisséia, de Homero, realizada por Manuel Odorico Mendes. O programa Café Filosófico é uma produção da TV Cultura em parceria com a CPFL Energia

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

LIGEIA E A PERPETUALIDADE

“Morte e Perpetualidade: A construção Mitológica da Resistência à Morte Em Ligeia”, de Edgar Alan Poe.
Almir Barbosa Santos
Texto aprovado como conclusão de Graduação em Letras Inglês-UFAL

Introdução

Esse texto propõe uma análise do conto “Ligeia” (1838), de Edgar Allan Poe, sob a perspectiva do tema Morte e Perpetualidade: a construção mitológica da resistência à morte. A análise é feita a partir do conto em inglês “Ligeia” (NORTON, 1998) e tem como ponto de partida a compreensão do que foi o Romantismo e, nesse sentido, seu contexto histórico no mundo e especificamente na vida de Edgar Allan Poe. Como referência teórica, para tal, parto das análises de Aguiar e Silva (1979), bem como Conceição (1995) que postulam as características do Romantismo na Europa e principalmente na Inglaterra, através de duas correntes: a liberal e burguesa, e a maldita e antitética. Esta última, ao sofrer a influência dos contos medievais, trouxe para a América, através de Edgar Allan Poe, o cultivo do mórbido, do gótico, presentes em seus contos de terror.
Ao analisar “Ligeia”, baseando-me no tema acima citado, uso como referência: As Utopias Gregas, de Rodrigues (1988), Convite à Filosofia, de Chauí (2000), Fundamentos de Filosofia, de Cotrim (2002), A Grécia Antiga e a Cultura Grega, de Jardé (1977) e Mitologia, de Wilkison & Philip (2007), para traçar paralelos entre as descrições de “Ligeia” dadas pelo narrador sem nome (protagonista- narrador do conto), cultura grega e mito, em que destaco a importância dos aspectos mitológicos e culturais enfatizados na pessoa de Ligeia. Outrossim, para analisar o papel da morte no conto Ligeia,seus aspectos e sua importância no contexto da existência humana, tomo como base as obras Fédon , de Platão (1999) , História Antiga e Medieval, de Soares (2003), Hamlet, de Shakespeare (2004), e Apocalipse,capítulo 1 e versículo 18, Bíblia (2004).Concernente ao papel da mulher no contexto histórico da relação com o homem e com a morte, tenho como referência a obra História do Medo no ocidente 1300 – 1800, de Delumeau (1989).
O corpus da análise do conto Ligeia se divide na seguinte forma: capítulo 1, Romantismo, para situar a obra de Edgar Allan Poe no contexto literário e histórico; no capítulo 2, faço uma análise desse conto dividindo-o em 4 subtópicos: 2.1- Ligeia, o conto, 2.2- Quem é Ligeia, 2.3 – A morte de Ligeia, 2.4- Lady Rowena - Narrador - Ligeia e 2.5- Ligeia Ressurge.Os subtópicos contemplam os seguintes assuntos: síntese do conto, a posteriori a personagem Ligeia, em que apresento as suas características observadas pelo narrador protagonista do conto. Em seguida destaco os acontecimentos relacionados à morte de Ligeia e as conseqüências na vida do narrador, seu marido. Relação entre narrador - Lady Rowena - Ligeia e finalmente o último ponto de análise que é sobre o ressurgimento de Ligeia.


Capítulo1-Romantismo


De acordo com Conceição, (1995, p.13-18), O Romantismo surgiu na Europa na segunda metade do século XVIII, em que ocorre a Revolução Industrial, o Iluminismo e a Revolução Francesa em 1789. Este movimento tem as seguintes características: anseio de liberdade criadora, subjetivismo, evasão, senso de mistério, culto da natureza, reformismo, fé e idealização da mulher e o nacionalismo. Pode-se observar uma corrente liberal e simpatizante da burguesia emergente e a corrente maldita e antitética, paradoxal que destaca o negro e o gótico. Enquanto a primeira tem representantes que querem romper com o passado clássico, as normas pré-estabelecidas, a segunda retorna ao passado buscando "a meditação sobre a noite, os sepulcros e a morte insere-se em uma temática pessimista e traduz a nostalgia do infinito que já angustiava os pré-românticos" (AGUIAR E SILVA 1979 p. 468).
Os representantes da nobreza morando em mansões com suas estruturas medievais, escuras, expressando um aspecto fantasmagórico, davam a idéia de uma situação sinistra, de macabro, de mórbido, e isso se reflete no romance gótico sempre evocando a Idade Média como fonte de inspiração. Haja vista as obras: O Castelo de Otranto, de Horace Walpole (1768) e Vathek (1786), de William Beckford, em ambas, o terror, o negro e o macabro são evidentes.
Enquanto a corrente lírica iniciou-se na Inglaterra com W. Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, o gótico se situa nesse país com Anne Radcliffe, em Mysteries of Udolpho (1794), e com Matthew Lewis, em The Monk (1796). Havendo nesse período a presença de Lord Byron com seu pessimismo mórbido e culto à morte, Frankenstein (1888), de Mary Shelley, outrossim, a redescoberta de Paraíso Perdido(1677), de John Milton, com ênfase na figura de satã.
Nesse contexto da corrente maldita e paradoxal, na literatura estadunidense surge Edgar Alan Poe (1809-1847) com suas obras de temática negra que vai desde os contos de suspense, até o retorno de um ser humano após a morte, se insere nesse contexto, “Ligeia” (1838), obra que a posteriori analiso nos aspectos tenebrosos da morte como problema primus inter pares que permeia essa tendência da obra de Edgar Alan Poe.
A produção lírica e os contos policiais de Poe são de esmerado valor, pois, inspirou vários intelectuais: na poesia, Baudelaire, Mallarmé, Verlaine e Rimbaud, e no conto policial Conan Doyle e Aghata Christie. Enfim, um grande escritor que se destacou e se destaca, pela originalidade e expressão da sua obra que, além de contista e poeta, foi também crítico literário. Como contista, modificou a forma desse gênero da língua inglesa. Sua temática de investigação policial ainda é inspiração para a literatura policial moderna.
A importância literária de Poe deve-se ao fato de que, seu estilo singular de fazer literatura, trabalha temas que a priori causam aversão, mas que a posteriori, em suas mãos, se tornam agradáveis e palatáveis, pois de um tema assaz tenebroso como a morte, é tão mimeticamente executado, que a vida se inferioriza e se torna diminuta na pena desse destro escritor. Seu interesse no aspecto psicológico e negro do ser humano expressa, a meu ver, o anseio em descrever e expor a natureza do ser complexo chamado homem. Nesse sentido, para compreender a sua obra, se faz necessário conhecer o seu estilo, pois é condição sine qua non, não se pode jamais compreender o universo literário desse escritor profícuo.
Ao adotar o estilo gótico nas suas obras, Edgar Allan Poe traz a Idade Média de volta, porque tal estilo se apresenta, conforme Souza (1989, p. 111-122), com as seguintes características: cenários medievais com castelos, igrejas, florestas, ruínas, os personagens melodramáticos, isto é, donzelas, cavaleiros, vilões e os criados, os temas e símbolos recorrentes, quais sejam, segredos do passado, manuscritos escondidos, profecias e maldições; psicologia do terror (o medo, a loucura, a devassidão sexual e a deformação do corpo, do imaginário sobrenatural (fantasmas, demônios, espectros e monstros) e dos aspectos religiosos (teocentrismo, inquisição e cruzada).


Capítulo 2 – O mistério de Ligeia
2.1 - LIGEIA, O CONTO


O conto “Ligeia”, escrito por Edgar Alan Poe, apareceu pela primeira vez na Baltimore American Museum, em setembro de 1838 (Norton, 1998). A história nesse intricado enredo se passa quando um homem se lembra dos detalhes inesquecíveis de sua esposa, cuja beleza e erudição eram perfeitas e cercadas de mistérios e segredos. A posteriori, essa mulher, chamada Ligeia, morre e o narrador da história se casa com lady Rowena. Com a morte dessa esposa, e já em seu leito de morte, alguns aspectos físicos (loura de olhos azuis) se transformam nas mesmas características da primeira esposa Ligeia (morena cabelos negros), causando grande espanto no marido saudoso, terminando assim o conto.

2.2 - QUEM É LIGEIA

A priori se percebe que o narrador “é um personagem que conta a sua história” (BROOKS e WARREN apud CARVALHO, 1981). O início da diegese de Ligeia é pontuado com a seguinte asserção: “I cannot, for my soul remember how, when, or even precisely I first became acquainted with Lady Ligeia” , (LIGEIA, p. 1449). Observa-se a partir desse momento que o narrador da história não consegue situar no tempo o início do relacionamento com Ligeia.
A posteriori, também é perceptível que embora homodiegético, ou seja, ao contar e participar da sua narrativa, ela é restritiva, ele não sabe tudo sobre sua amada; ela lhe falara a respeito, mas era algo vago: “Of her family – I have surely heard her speak” (LIGEIA, p.1449). Na seqüência ele descreve suas características e sua voz: “I was never made aware of her entrance into my closed, study, save by dear music of her sweet voice” (LIGEIA, p.1449). Isso nos remete a voz de encantamento das sereias das mitologias gregas e que, não por acaso tem Ligeia como um de seus nomes. A voz é a arma das sereias que enfeitiça seduz e, haja vista que é dito a Ulisses em:
Às Sereias chegarás em primeiro lugar, que todos
os homens enfeitiçam, que delas se aproximam. (…)
Prossegue caminho, pondo nos ouvidos dos companheiros
cera doce, para que nenhum deles as ouça.
Mas se tu próprio quiseres, deixa que, na nau veloz
te amarrem as mãos e os pés (…) (HOMERO,2003,P.200)
Outro aspecto que nos reporta ao caráter misterioso de sua pessoa é a sua rapidez: “the incomprehensible lightness and elasticity of her footfall. She came and departed like a shadow” (LIGEIA, p. 1449). Tal descrição nos permite uma associação entre Ligea e o plano do divino, do perpétuo, pois para o amante saudoso, ela tinha algo a mais. Sua beleza era sem igual: “In beauty of her face no maiden ever equalled her” (LIGEIA, p. 1449).
Mas que Beleza é esta? Aquela que existe em essência, consiste em estar no próprio ser, pois conforme (COTRIM, 2002) “para os filósofos existencialistas beleza é algo que existe em si mesma”. A beleza de Ligeia encantava o narrador, lhe deixava em uma situação de terna adoração. Isso me parece perceptível na descrição idolátrica de sua amada, sobre uma beleza que encantava e fascinava tanto que era o padrão, o paradigma do belo, porque este estava intrínseco à própria Ligeia.
Compreendo que ao descrever sua amada dessa forma o narrador a relaciona ao divino e ao eterno, ao perpétuo, pois “os deuses seriam uma espécie de espelho idealizado dos homens, toda a qualidade humana passa a ser exponenciada por um deus” (RODRIGUES, 1988, p.22), e que Ligeia, ao ser descrita como ser divino, perene, faz uma conexão entre divino e humano:
A rigor, o divino não existiria sem o homem. O divino é uma qualidade que a natureza inteira não possui sem a participação do homem. Não a participação prosaica e cotidiana, mas a do êxtase. Mas que é o êxtase? É aquele momento que possibilita integração do divino pela integração do homem e do mundo de tal forma que ambos não se distingam mais: por isso ela é a experiência do uno (RODRIGUES, 1988 p. 31).

Percebo que se Ligeia é descrita de uma forma tão perfeita, completa, sua essência se aproxima do divino, mostrando que esta fusão de homem e deus objetiva uma luta de resistência perene à morte, pois esta não aniquila o divino, o eterno, visto que seu alvo é o mortal, o que se aniquila, o temporal, e Ligeia, pelas descrições do narrador, apresenta qualidades não-temporais, quais sejam, aquelas que o tempo e a própria morte não podem apagar, a saber, sua beleza, sua sabedoria e sua própria essência. Nesse contexto a partir das minhas observações concluo que ao apresentar sua esposa de forma tão misteriosa o narrador sem nome a faz palpável, concreta, real; essa é a sua Ligeia.
Ligeia, de acordo com as minhas leituras, se caracteriza como o arquétipo da perfeição, da beleza, do anelo de tudo que o ser humano quer ao seu lado: da sabedoria, do companheirismo permanente e da misteriosa essência do belo. Segundo Rodrigues (1988, p.31), “A rigor o divino não existiria sem o humano”. Percebo assim que, as descrições de Ligeia sempre são associadas com o divino, como é observado no fragmento abaixo:
I examined the contour of the lofty and pale forehead – it was faultless – how cold indeed that Word when applied to a majesty so divine! The skin rivaling the purest ivory, the commanding breadth and repose, the gentle prominence of the regions above the temples, and then the raven Black, the glossy, the luxuriant and naturally-curling tresses setting forth the full force of the Homeric epithet, Hyacinthine.” (LIGEIA p.150) .
Tudo no corpo de Ligeia exprime perpetualidade (eternidade) pois ela não pode ser estagnada no tempo ou no espaço porque está ligada ao divino, aos templos, aos deuses, à majestade. O nariz, aos medalhões dos judeus; boca, dentes, queixo e olhos são expressões do divino, da espiritualidade grega, às donzelas do paraíso islâmico. Esta é a Ligeia que ele, o narrador, quer preservar, ainda que pelo poder expressivo das palavras. Pois, conforme Rodrigues (1988, p.33), “O mito é linguagem e, como tal, organiza a intercomunicação humana”. Tudo isso descreve Ligeia, nas palavras do narrador, como uma tentativa de resistência à morte.



2.3 A morte de Ligeia

Após descrever a pessoa de Ligeia e destacar suas qualidades, o narrador nos apresenta um fato que entristece sua vida: "she died” (ela morre). A morte, temor primus inter pares do ser humano que minimiza sua existência. A inimiga maior da raça humana. Eis a razão pela qual, segundo minhas análises, o narrador descreveu Ligeia de forma tão perfeita, tão mitológica: ele a queria eternizar, torná-la perene, desejando a aniquilação, não da sua amada, mas da própria morte. Isso nos faz refletir sobre a fatalidade que é sui generis da raça humana: todos devem morrer.
Como vencer a morte? “Ligeia” me leva a uma resposta através do mito, da cosmogonia, pois no aspecto cosmológico, o homem se realiza, se perpetua; encontra a sua razão de viver, sua vitória sobre a morte. Dessa forma, podemos destacar dois pontos interessantes: Logos e Mitos, opostos que a priori se contradizem e a posteriori se complementam. De acordo com Grimal (1982, p.8-9), “O Mito se opõe ao Logos como a fantasia à razão. Como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e Mito, as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida e do espírito”.
A humanidade sempre procurou mitificar a vida após a morte para vencê-la, tal qual Ligeia nas palavras do seu amado. Os egípcios criam que "O ser humano possui uma alma ou duplo corruptível, denominado Ka, além de uma alma imortal Ba" (SOUZA, 1989, p17). Tudo expressava que era preciso “conservar o corpo o mais próximo possível do que foi em vida” (SOARES, 2003, p. 159). Os gregos também criam na capacidade de vencer a morte: "Héracles foi aos infernos para libertar Teseu e trouxe consigo, acorrentado, o cão Cérbero de três cabeças" (JADE, 1977, p. 140). Outrossim, Orfeu foi aos infernos à procura da esposa (JADE, 1977, p. 141). Até mesmo Jesus Cristo, como personagem histórico, declarou: “Fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém! Tenho as chaves da morte e do hades" (APOCALIPSE, 1.18).
Portanto a morte não pode apagar as lembranças do amante de Ligeia. Platão diz: "É opinião muito antiga que as almas, ao deixarem este mundo, vão para o hades, e que dali voltam para a terra e retornam à vida após haverem passado pela morte" (FÉDON, 1995, p. 132). A partir das minhas leituras percebi que o narrador tinha consciência que Ligeia estava perto, o que sugere o que Platão diz mitologicamente sobre as almas poderem voltar do mundo dos mortos. Isso transparece em: “I had felt that some palpable object that passed lightly by my person and I saw that there lay a faint indefinite shadow upon the golden carpet in the very middle of the rich lustre,thrown from the censer” (LIGEIA, p. 1506). Isso também é percebido em outra situação análoga:" It was then that I became distinctly aware of a gentle foot-fall upon the carpet, and near the couch" (LIGEIA, p. 1506). Ligeia não podia morrer, ela era a vida do amante, do apaixonado marido. Embora, Lady Rowena fosse sua esposa, ela não lhe preenchia, ele precisava de Ligeia.
Na morte de Ligeia percebe-se algo diferente, o marido apaixonado não a esquece com o passar dos anos. A morte para ele não significa a separação definitiva da pessoa da sua amada, pois, suas lembranças, seus dotes, sua personalidade, sua própria essência está nele, com ele, viva nele. Isso transparece, conforme percebo nas minhas observações, nas constantes invocações do narrador pela sua amada Ligeia.
Na descrição de Ligeia, o narrador acha singularidade e perfeição em seus traços. Eles são associados ao divino, ao eterno, pois refletem mistério e beleza. Parece-me claro que ao fazer analogia do divino com o humano na descrição de Ligeia, o narrador faz tal associação para que o divino (no caso, as descrições mitológicas de Ligeia) possa ser sentido. Com tal atitude, a morte não teria significação.
Enquanto o divino se mantém espiritualizado, pois os deuses estão distantes do ser humano, ao descrever Ligeia com características divinas, o narrador, conforme a análise que faço, faz a fusão das duas naturezas: a divina e a humana. Fazendo isso, a morte pode até vencer a natureza humana, mas ela perde sua força quando se depara com a natureza divina.
Por isso, percebo mais um indício de que a descrição mitológica de Ligeia tem como objetivo resistir à morte. E no êxtase da descrição, o narrador se eleva. Êxtase é entendido aqui como indica Rodrigues (1988, p. 31): “É aquele momento em que se possibilita a experiência do divino pela integração do homem e do mundo, de tal forma que ambos não se distingam mais: porque ela é experiência do uno”.
Parece-me claro que quando o presente não satisfaz, busca-se o passado ou o futuro, procurando revivê-lo, concretizá-lo, torná-lo palpável. Negando o presente com nossa nostalgia e lembranças daquilo que já se foi, ou projetando um futuro a partir de um ideal utópico, mitológico. Nesse sentido, o narrador sem nome, nega Lady Rowena sua atual esposa após a morte de Ligeia, que representa o seu presente, para buscar sua primeira esposa nos momentos de outrora.
Essa é uma forma de resistir à morte, de torná-la insignificante, pois apesar dela (a morte) ter sucumbido o corpo corruptível, a querida Ligeia, seu ser, ainda está presente. Com isso, a ação do narrador em invocar sua amada que já não existe, busca perpetuar o que é transitório, passageiro, efêmero, a saber, a existência humana. Esta tem limite e se prende ao mortal. Para perenizá-la, o eternamente apaixonado narrador sem nome, jamais a esquece.
A morte de Ligeia não significa uma separação eterna e definitiva, para o seu companheiro, conforme observo. Como pode alguém conviver apenas com as lembranças de uma pessoa que já se foi e não está palpável, ali, ao seu lado? Percebo, nesse sentido, que a morte de Ligeia se torna diminuta ou insignificante para o apaixonado narrador: seu corpo não estava ali, mas suas recordações eram o vínculo do eterno amor. Dessa forma, a morte não denota para o narrador, a aniquilação da amada Ligeia, mas a aproximação com os melhores momentos com ela e isso, é perenizá-la e torná-la real.


2.4 - Lady Rowena - Narrador- Ligeia

Se Ligeia é eternizada pelas descrições apaixonadas do narrador, Rowena, por outro lado é descrita como: “the fair haired and blue-eyes” (cabelos loiros e olhos azuis) (LIGEIA, p. 1503). A posteriori a relação da família de Rowena com o seu Casamento e o lugar onde ela iria morar é expresso em: ''Where were the soul of the haugty family, of the bride when through thirst of the gold they permitted to pass the thresshold of an apartment so bedecked, a maiden and a daughetr so beloved? '' . E ainda a relação entre Rowena e o narrador é citada em:

I passed with the lady of Trevanion, the unhallowed hours of the first month of our marriage passed them with but little disquietitude. That my life dreadedthe fierce moodines of my temper- that she shunned me, and loved but litle, I could not help perceiving- but it gave me rather pleasure than otherwise. Loathed her with a hatred belonging more to demon than the man . (LIGEIA, p 1505).
Por que a difícil relação com Rowena? Compreendo que o narrador queria Ligeia e suas lembranças não se apagaram de sua vida: "my memory flew back, (oh, with what intensity of regret!) to Ligeia,the beloved.the beautiful,the entombed... of her purity, of her wisdon, of her lofty,her ethered nature, of her passionate,her idolatrous love" . (LIGEIA, p 1505).

Essa relação entre homem e mulher, onde ela se coloca como um ser divino, perene, eterno que não se extingue com a morte, me leva a supor que o narrador poderá estar fazendo uso do mito, ou seja, ele usa a linguagem para refletir o mito que “é linguagem e, como tal, organiza a intercomunicação humana [...] com um mínimo necessário de coesão e racionalidade. A linguagem pode conter fantasia, mas não é fantasia”. (RODRIGUES, 1988, p.33). Por isso, é possível que o narrador procure, através de suas descrições, mitificar a existência de Ligeia com o objetivo de perpetuá-la através da linguagem mitológica.
Para o marido eternamente apaixonado, Ligeia tinha que voltar, mas a realidade, nas palavras do narrador, é: "I could restore the departed Ligeia to Pathways she had abandoned upon earth” (LIGEIA, p.1505). Quanto a Rowena, conviver com tal marido e em um lugar que ela não tinha espaço teve uma conseqüência: ''The second month of the marriage, the Lady Rowena was attacked with sudden illness [...] the fever which consumed her" (LIGEIA, p. 1505). Para o narrador a causa seria “The phantasmagoric influences of the charmer itself'' (LIGEIA, p. 1505). Seria isso ou o seu eterno amor por Ligeia? A negação da sua morte?
A atração por Ligeia e repulsa por Rowena,é um jogo de opostos: admiração e hostilidade pelo mesmo corpo, com duas entidades. Demonstra muito bem a relação do homem com a mulher: “A atitude masculina em relação ao 'segundo sexo' sempre foi contraditória, oscilando da atração a repulsa, da admiração a hostilidade.” (DELUMEAU 1989, p. 310).
Mas ainda que Rowena seja mulher, ela não expressa perenidade, não preenche o marido saudoso de Ligeia, pois a primeira era ''a mulher'' e não uma mulher, ou seja, uma mulher diferente que causa admiração e que pode ser exaltada. "Da idade da pedra, que nos deixou muito mais representações femininas do que masculinas, até a época romântica, a mulher foi de certa forma exaltada” (DELUMEAU, 1989, p. 310). Lady Rowena representa para o saudoso narrador, a fraqueza alguém não conseguiu suplantar o seu amor por Ligeia, pois para ele, esta tem todos os requisitos de beleza, de amor e sabedoria. Isso dá idéia de perpetualidade, mulher como vida e morte:
Essa ambigüidade fundamental da mulher que dá a vida e anuncia a morte foi sentida ao longo dos séculos, e especialmente expressa pelo culto das deusas-mães. A terra mãe é o ventre nutridor, mas também o reino dos mortos sob o solo ou na água profunda. É cálice de vida e morte. (DELUMEAU 1989, p 312)
Por que o tema vida e morte? Porque este preenche todos os anseios do saudoso narrador. A morte representa a separação e a partida de Ligeia; a vida expressa o retorno e reciprocidade.
Finalmente concluo que a relação Rowena – narrador- Ligeia se expressa na seguinte tríade: Fraqueza – Insatisfação- Completude, pois enquanto Rowena é para o narrador sinônimo de fraqueza, isso o torna insatisfeito, mas quando ele se lembra de Ligeia, esta o completa.

2.5 Ligeia Ressurge


O anelo inflamante do narrador pela presença de Ligeia não cessa nem mesmo diante da eminente morte de Rowena. Ele precisava de sua amada Ligeia, a queria. Seria a morte capaz de separá-los? Agora, ao fim do conto, Ligeia não estava ali e Rowena jazia no leito. No entanto, conforme Hamlet expressa, “Há mais mistério entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” (ato II, cena II, 1995). Em meio às lembranças do narrador sem nome, acontece algo no leito que pode mudar toda a história de sua vida, algo sobrenatural lhe espantará, pois no corpo de Rowena um grande mistério se revelará:
The greater part of the fearful night had worn away, and she who had been dead, one again stirred — and now more vigorously than hitherto, although arousing from a dissolution more appalling in its utter hopelessness than any. I had long ceased to struggle or to move, and remained sitting rigidly upon the ottoman, a helpless prey to a whirl of violent emotions, of which extreme awe was perhaps the least terrible, the least consuming. The corpse, I repeat, stirred, and now more vigorously than before. The hues of life flushed up with unwonted energy into the countenance — the limbs relaxed — and, save that they eyelids were yet pressed heavily together, and that the bandages and draperies of the grave still imparted their charnel character to the figure, I might have dreamed that Rowena had indeed shaken off, utterly, the fetters of Death .(LIGEIA p.1508)
Assim como Ulisses, Enéias, Orfeu e Hércules voltaram do hades e venceram tánatos, o deus da morte, algo extraordinário estava para acontecer, pois os desejos do eterno apaixonado estavam prestes a se realizar, Ligeia ressurge dos mortos no corpo de Lady Rowena:
When, arising from the bed,tottering, with feeble steps, with closed eyes, and with manner of one bewildered in a dream, the thing that was enshrouded advanced boldly and palpably into the middle of the apartment. Could it, indeed, be the living Rowena
who confronted me? Could it indeed be Rowena at all — the
fair-haired, the blue-eyed Lady Rowena Trevanion of
Tremaine? Why, why should I doubt it? The bandage lay
heavily about the mouth — but then might it not be the mouth
of the breathing Lady of Tremaine. And the cheeks — there
were the roses as in her noon of life — yes, these might indeed
be the fair cheeks of the living Lady of Tremaine. And
the chin, with its dimples, as in health, might it not be hers?
— but had she then grown taller since her malady? What inexpressible madness seized me with that thought? One bound,
and I had reached her feet! Shrinking from my touch, she let
fall from her head, unloosened, the ghastly cerements which
had confined it, and there streamed forth, into the rushing atmosphere of the chamber, huge masses of long and disheveled
hair; it was blacker than the raven wings of the midnight!
And now slowly opened the eyes of the figure which
stood before me. 'Here than, at least,' I shrieked aloud, 'can I
never — can I never be mistaken — these are the full, and the
black, and the wild eyes — of my lost love — of the lady —
of the LADY LIGEIA.' (LIGEIA p.1508).

A perplexidade do narrador diante do retorno de Ligeia é grande, ele não consegue acreditar que da não-amada Rowena ressurgiu a sua amada Ligeia. O impossível aconteceu: A morte foi vencida pelo anelo do narrador em ter sua querida de volta. Não era Rowena, mas a bela e magnífica mulher desejada. Compreendo aqui que a morte perdeu a grande batalha para o amor.
O desejo do narrador sem nome, conforme observo, se concretiza, Ligeia ressurge no corpo de Lady Rowena. A morte foi derrotada e Tánatos perdeu e Eros venceu. Ligeia volta e se dirige ao amado. A Maior ameaça ao ser humano foi vencida, aniquilada, sucumbida diante do amor de um homem por uma mulher.
Ao expor tais visões, o apaixonado narrador ainda se mostra perplexo e atônito, pois a contemplação do retorno de um humano que vem do além, embora desejada, é espantosa. Diante de tal desfecho, reflito que a resistência à morte se concretiza, a partir do momento que Ligeia ressurgiu.
Mas por que Edgar Allan Poe traz Ligeia de volta? Compreendo que ele se coloca na posição de mortal que anela vencer o temor primus inter pares do ser humano, a morte, e assim Ligeia ao se colocar no corpo de Rowena, me faz refletir que o anelo do ser humano é possuir a eternidade, de se perpetuar. Haja vista o pensamento dos egípcios na mumificação, dos diálogos de Sócrates em Fédon acerca da volta da alma do hades, dos personagens mitológicos gregos que voltaram do reino dos mortos.
Edgar Allan Poe, de acordo com minhas análises, expressa através de Ligeia, a vitória da resistência à morte fazendo uso da mitologia, pois esta, busca a ligação do divino com o humano. Sendo este transitório, aquele o torna perene e eterno, e o que é eterno, não é vencido pela morte. Por isso, Ligeia, para se eternizar precisava estar relacionada ao divino, e isto, o narrador fez muito bem ao descrevê-la de forma tão mitológica. Isso ocorre, provavelmente para perpetuá-la e torná-la eterna, e isso se concretiza quando Ligeia ressuscita.
Ao expor Ligeia de forma tão perfeita, o narrador sem nome, não apenas descrevia uma mulher modelo, mas, um ser que trouxesse em si mesmo, o protótipo da vida eterna, da perpetualidade.
Tudo nessa mulher misteriosa reflete e exprime perenidade: seu conhecimento expressa, conforme minhas análises, todo saber acumulado da humanidade, pois o saber também está relacionado ao divino, pois para o homem, o saber veio da divindade, haja vista o fogo que prometeu roubou para beneficiar a humanidade.
Os olhos de Ligeia estão relacionados com mistérios, pois a visão poderá representar a amplidão ou onisciência. A rapidez de seus passos expressa também, a onipresença, peculiar aos deuses. Sendo esta, a capacidade de se deslocar com facilidade e estar em vários lugares ao mesmo tempo, sendo este também um desejo do ser humano.
A beleza dessa misteriosa mulher é uma forma de designar perenidade, porque a beleza pode ser vista como algo divino e perfeito, pois encanta e dá prazer, pois conforme Cotrim (2002, p.319), “julgamos belo aquilo que nos proporciona prazer”. Sua volta dos mortos é o clímax das descrições apontadas pelo narrador sem nome, pois é o ponto máximo da perpetualidade: vencer o temor primus inter pares do ser humano, a morte. Por isso em Ligeia vejo um desejo de perpetualidade e eternidade louvada e exaltada.
Por fim, as descrições mitológicas de Ligeia denotam poesia e a concretização de pontos, que a priori, se distanciam, quais sejam, morte e vida, para a posteriori, se convergirem, porque “mitos são como poemas, operam por meio de metáforas [...] até que pontos distantes se tocam e se convergem” (WILKISON & PHILIP, 2007, p.15).
Se o narrador apaixonado descreve Ligeia de uma forma, a meu ver, mitológica, isso deixa claro que “mitos são histórias sagradas sobre as grandes questões da vida e da morte [...] mas também do relacionamento entre os sexos” (WILKISON & PHILIP, 2007, p.16). Embora o eterno apaixonado vivesse na realidade cotidiana da ausência de Ligeia, ele anelava sua presença, pois “os mitos fornecem tanto um caminho para o mundo sacro, quanto um guia como viver no mundo da realidade cotidiana” (ibidem p.16).
Eis a construção mitológica de resistência à morte em Ligeia: A necessidade do narrador, que nem a si mesmo designou, e se concentrou única e exclusivamente na sua amada, para descrever mitologicamente seu eterno amor por ela vencer a morte e amá-la para sempre, pois quando “Eros fere alguém com sua flecha, esse alguém se apaixona e logo se sente faminto e sedento de amor” (CHAUÍ, 2000, p. 32). Logo, Tánatos perdeu e a perpetualidade se concretizou. Compreendo que se o “mito narra ou uma guerra entre as forças divinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma coisa no mundo dos homens” (CHAUÍ, 2000, p. 32), isso acontece porque o conflito entre amor e morte (Eros e Tánatos) provoca o ressurgimento de algo que pereceu, a saber, Ligeia. Isso é perpetualidade (ou eternidade) concretizada como fruto do poder descritivo do mito nas características de Ligeia, a mulher eternamente amada.
A perpetualidade da existência humana sempre foi e sempre será anelada. O homem, que é mortal, jamais aceitará ser aniquilado, apesar de ter consciência da sua transitoriedade na terra, pois a morte se apresenta como um ser superior ao homem, porque tem o poder de fazê-lo descer ao pó. Diante de tal fatalidade, surge no plano da existência humana o mito, como resposta a perenidade da sua existência.
Se a morte é o cessar da existência do homem na terra, através do mito ele se eleva acima da morte, pois se filia aos deuses, e estes lhe dar condições totais para viver eternamente e até para voltar a viver na terra e derrotar o poder da morte, fazendo-a inferior e subordinando todos os poderes desse ser que tem como objetivo afastar o homem de seus entes queridos e dos prazeres do mundo físico, nesse sentido, Ligeia quando morre como uma simples mulher, nada poderia ser feito por ela, pois era uma mortal contra um ser que está além do mortal, mas como o narrador sem nome associa sua amada ao mito, ou seja, descreve suas características como um ser que possui virtudes além do mortal, logo sua amada Ligeia não se encontra mais no plano da perenidade, mas está situada no plano mitológico, que representa o desejo inflamante do homem de se perpetuar, tornar-se eterno.
Se a adorável esposa tem intrinsecamente qualidades divinas através de suas descrições mitológicas, subtende-se que seu anelo é mantê-la viva. Entendo que com tais detalhes nas descrições de Ligeia, o narrador sem nome não apenas expressa amor, por extensão, a resistência ao poder da morte.
Qual é o maior desejo do ser humano, senão permanecer jovem, vigoroso, e nesse sentido eterno. Compreendo que o ideal de eternidade descrito em Ligeia, é atual nos nossos dias, pois a tentativa de se perpetuar, se constrói de forma mitológica com os títulos que são dados às pessoas, tais como rei do rock, rei do futebol e fenômeno apenas para citar alguns exemplos, e de outra forma através da lipoaspiração e de cirurgia plástica tentando retardar o aniquilamento através da morte, isso tem muito em comum com o narrador sem nome: resistir à aniquilação do corpo, que a posteriori será sucumbido pela morte e isso é um a forma de resistência.
Ligeia voltou do mundo dos mortos e mostrou para o narrador sem nome que venceu a morte, mas a conseqüência foi o espanto e o medo. Viver para sempre requer um preço: considerar o mito tão racional quanto o logos, pois enquanto aquele considera a explicação de tudo através de deuses que a tudo dão origem, o último procura explicar racionalmente a origem de tudo. Nesse sentido ao trazer Ligeia de volta, Edgar Allan Poe, a meu, ver contrasta não apenas vida e morte, mas mito e razão, pois se pela razão jamais um ser humano comum retorna dos mortos, o mito o faz acontecer, a saber, através das descrições mitológicas de Ligeia, apontadas pelo eterno apaixonado, o narrador sem nome, e isso é a construção mitológica da resistência à morte. Pois o importante é buscar aquele ponto de eternidade:

Aqueles que se apegarem ao seu corpo mortal e as suas afeições, necessariamente acharão tudo muito penoso, pois tudo - para eles – terá que acabar. Mas para aqueles que encontram o ponto imóvel da eternidade, em volta tudo gira, inclusive eles próprios, tudo é aceitável da maneira como é e pode ser vivenciado como magnífico e maravilhoso. (CAMPBELL 2000, P.8).
Se o narrador sem nome se limitasse apenas em recordar momentos amorosos com a sua amada Ligeia e não a descrevesse de forma tão mitológica, estaria, a meu ver apenas se prendendo ao aquém, isto é, ao seu mundo, qual seja, o mundo físico, e tal processo seria como diz Campbell, “penoso”, mas ele buscou, conforme percebo nas minhas análises, “o ponto imóvel da eternidade” através de características eternas na própria Ligeia, demonstrando com isso, um viver (que antes se tornara melancólico com a morte de sua esposa), magnífico e maravilhoso. Com isso, tudo que se relaciona com Ligeia, se perpetua, é durável, pois tem conexão com a eternidade.
De acordo com Campbell (2000), “tudo é aceitável” quando se encontra o “ponto imóvel da eternidade”, pois o homem deixa de apenas viver pelos sentidos que conotam a ligação deste homem com o aquém, o mundo físico, para fazer conexão com o além, a saber, o mundo mitológico, que diz respeito ao contato com as divindades. Isso fica bem claro, a meu ver, na relação que o apaixonado narrador faz entre Ligeia e o mundo clássico das mitologias, isto é, o mundo grego, isso por meio das estátuas, dos deuses, da epopéia de Homero entre tantas outras referências, porque o desejo é justamente isso: perpetuá-la e resistir á morte.
Quando o mito se torna a única razão de viver de um ser humano, ele se distancia do mundo real para se aproximar do plano do mundo cosmogônico, pois conforme Cotrim (2002) “a força da mensagem dos mitos reside, portanto na capacidade que eles têm de sensibilizar estruturas profundas, inconscientes, do psiquismo humano. Nesse sentido,a descrição mitológica de Ligeia, a meu ver, desperta não apenas no narrador apaixonado, o desejo em tê-la novamente, mas, de perpetuá-la, sendo o eterno apixonado sensibilizado por tal anseio.


Conclusão

A morte jamais vai impedir o homem de sonhar com a perpetualidade. Edgar Allan Poe, em “Ligeia”, me faz refletir que a existência humana é cercada de mistério e segredos que literariamente podem ser desvendados. Por que não ter domínio sobre a morte e vencê-la de forma magistral, trazendo de volta a pessoa que perdemos pela fragilidade da existência? Se os gregos faziam com que seus heróis fossem ao mundo dos mortos e retornassem vitoriosos, por que não pensar na possibilidade de voltar do hades e vencer Tánatos? Daí, a volta de Ligeia para viver o grande amor do passado. Morte, essa, que é sucumbida pela necessidade da perpetualidade, que é divina, eterna, que embora fazendo parte do divino, do sacro, é anelada pelo transitório, isto é, pelo que perece, a saber, o homem mortal que tem algo do permanente, mas ainda não a permanência. Por isso Ligeia volta, não apenas para mostrar que a morte pode ser derrotada, mas que o homem anela viver sem ela.
Se não se pode vencer a morte de forma lógica e racional, o ser humano apela para o mito, pois este, fugindo do pensamento racional, se basta e se completa, complementando assim o homem. Ligeia, como mulher que demonstra nas palavras do seu apaixonado narrador, traz em sua essência, a arte de se descrever o belo filiado ao mito, pois:
O mito tem por finalidade apenas a si mesmo. Acredita-se nele, conforme a própria vontade, mediante um ato de fé, caso pareça belo ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. O mito assim, atrai em torno de si toda a parcela do irracional existente no pensamento humano; por sua própria natureza é aparentado à arte, em todas suas criações.
(GRIMAL, 1982, p.8-9)
Compreendo que se o mito tem por finalidade apenas a si mesmo, pois pareça belo, verossímil, irracional e filiado às artes, percebo tudo isso na relação do narrador com Ligeia, para ele não é importante a morte de Ligeia porque se a sua descrição é mitológica , esta se basta a ele mesmo, tal qual o mito. Se descrevê-la dessa maneira tão bela, filia a amada Ligeia às artes, isso para ele é verossímil e expõe o que o mito desperta no homem, conforme Grimal “a parcela do irracional existente no pensamento humano”, expressando, de acordo com minhas análises a perpetualidade e a construção mitológica da resistência à morte,destacadas na descrição da eterna Ligeia.

Referências Bibliográficas

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DELAMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300 – 1800. Companhia das Letras, São Paulo, 1993.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução, editora Martins fontes, São Paulo, 1983.
GRIMAL, Pierre. A mitologia Grega. 3. ed. São Paulo , Brasiliense, 1982.(col. Primeiros vôos).
JARDÉ, Auguste. A Grécia Antiga e a Vida Grega, editora universitária, São Paulo, 1977.
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SAGRADA, Bíblia. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Revista e Corrigida. Ed.1995. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.
SOARES, Carmen Isabel Leal. A morte em Heródoto: valores universais, particulares e éticos. Fundação Calouste Gulbenkian. Fundação para a Ciência e Tecnologia. Textos Universitários de Ciências Sociais e humanas.
SOUZA, Osvaldo Rodrigues, História Antiga e Medieval, ática, São Paulo, 1989.
WALPOLE, Horace. The castle of Otranto. In: Three Gothic novels. London: Penguin, 1986.
SHAKEASPEARE, William, Hamlet. Tradução de Millôr Fernandes, L&PM,
Porto Alegre, 2009.

CONTRASTES GRAMATICAIS: ERROS COMUNS A SEREM EVITADOS EM INGLÊS

Ricardo Schütz

Aprender a falar um idioma estrangeiro consiste não apenas em assimilar seus elementos, mas também em evitar a interferência negativa da língua mãe. Embora este tipo de interferência seja mais evidente na pronúncia, também ocorre no plano gramatical, levando o aluno a produzir freqüentemente frases desestruturadas e incompreensíveis. O próprio aluno normalmente sente que algo está errado, mas a idéia que ele está tentando colocar está tão intimamente associada à estrutura usada no português, que parece não haver outra maneira. O estudo comparativo de dois idiomas leva à clara identificação dessas diferenças entre eles e permite prever os erros bem como procurar evitá-los antes de se tornarem hábitos.

Este trabalho é resultado de uma minuciosa análise dos erros mais freqüentemente observados no ensino de EFL (English as a Foreign Language) a brasileiros. Muitos destes erros podem ser observados mesmo em alunos que já alcançaram níveis avançados de fluência, e resultam da falta de contato com a língua ou de um contato através de instrutores que falam um inglês "aportuguesado".

Além da interferência negativa da língua mãe, temos aquela proveniente da generalização de regras do idioma estrangeiro; ou seja, da não-observância de exceções. Alguns destes pontos também são abordados neste trabalho.


1. Formulação de idéias interrogativas e negativas: (erro comum apenas no início do aprendizado)
A primeira grande dificuldade que o brasileiro, falante nativo de português, iniciando seu aprendizado em inglês enfrenta, é normalmente a estruturação de frases interrogativas e negativas. Frases interrogativas em português são diferenciadas apenas pela entonação, não exigem alteração da estrutura da frase. No inglês, além da entonação, temos, no caso dos Be Phrases (frases com o verbo to be ou com qualquer outro verbo auxiliar ou modal), a inversão de posição entre sujeito e verbo:

He's a student. - Ele é estudante.
Is he a student? - Ele é estudante?
I can speak English. - Eu sei falar inglês.
Can you speak English? - Você sabe falar inglês?

E no caso de Do Phrases, frases em que não há verbo auxiliar, surge a necessidade de uso de verbo auxiliar DO para formular perguntas ou frases negativas:

He speaks English - Ele fala inglês.
Does he speak English? - Ele fala inglês?
He doesn't speak French. - Ele não fala francês.

Além de contrastarem profundamente em relação ao português, esses dois tipos de estruturas contrastam entre si. O contraste entre Be Phrases e Do Phrases aparece nos modos interrogativo e negativo. Be Phrases fazem a inversão de posição entre sujeito e verbo para formação de frases interrogativas ou negativas, não precisando de verbo auxiliar, enquanto que Do Phrases precisam do verbo auxiliar DO. Isto representa uma dupla e acentuada dificuldade para os falantes nativos de português, onde na prática não existem verbos auxiliares e onde a formação de frases não é afetada pelos modos (afirmativo, negativo e interrogativo). O modo interrogativo em português, como vimos no exemplo acima, consiste apenas em uma diferente entonação, enquanto que em inglês exige uma significativa alteração na estrutura da frase, além da entonação. A dificuldade não é de entender, mas sim de assimilar e automatizar. Quem fala português como língua mãe não está acostumado a estruturar seu pensamento dentro destas normas e precisará praticar exaustivamente para conseguir "internalizar" essas estruturas.



2. The subtle presence of the verb TO BE - Presença/ausência do verbo TO BE (erro comum até níveis intermediários)
Do ponto de vista fonético, nas frases afirmativas, a presença ou não do verbo TO BE é quase imperceptível aos ouvidos do aluno principiante. A função gramatical de um verbo numa frase, entretanto, é preponderante. Se faltar onde deveria estar, ou se ocorrer quando não deveria, o erro é grosseiro. Observe os seguintes exemplos:

I lost. - Eu perdi.
I'm lost. - Estou perdido.
It hardly works. - Isto dificilmente funciona.
It's hard work. - Isto é trabalho duro.
They like children. - Eles gostam de crianças.
They're like children. - Eles são como crianças.
It looks like it's going to rain. - Parece que vai chover.

O aluno com este tipo de dificuldade deve treinar o ouvido e a pronúncia, e acostumar-se a perceber a grande diferença funcional deste pequeno detalhe fonético.


3. Subjectless sentences - Frases sem sujeito: (erro comum até níveis avançados)
Em português freqüentemente as frases não têm sujeito. Sujeito oculto, indeterminado, inexistente, são figuras gramaticais que no português explicam a ausência do sujeito. Isto no inglês entretanto não existe. A não ser pelo modo imperativo, toda frase em inglês normalmente tem sujeito. Na falta de um sujeito específico, muitas vezes o pronome IT deve ser usado.

Além da questão da presença obrigatória do sujeito, temos um problema com relação a seu posicionamento. Em português muitas vezes o sujeito aparece no meio ou no fim da frase. Em inglês ele deve estar de preferência no início da frase. Observe os seguintes exemplos:

Tive um problema. - I had a problem.
Está chovendo. - It's raining.
Ontem caiu um avião. - An airplane crashed yesterday.
Esses dias apareceu lá na companhia um vendedor. - A salesman came to the office the other day.

Ao formar uma frase, o aluno deve acostumar-se a pensar sempre em primeiro lugar no sujeito, depois no verbo. O pensamento em inglês estrutura-se, por assim dizer, a partir do sujeito.


4. There TO BE = ter (existência): (erro comum até níveis intermediários)
Em português o verbo TER tem pelo menos dois significados importantes: posse e existência. Exemplos:

Eu tenho um carro. = Eu possuo um carro. - I have a car.
Tem (há) um livro sobre a mesa. = Existe um livro sobre a mesa. - There's a book on the table.

Sempre que o verbo TER significar existência (haver), a frase não terá sujeito; e isto ocorre com muita freqüência em português. Em inglês, esta estrutura corresponderá sempre ao There TO BE. Observe os seguintes exemplos:

Não tem (há) problema. - There's no problem.
Tem (há) muita gente. - There are many people.
Não tem (há) ninguém que fala inglês aqui? - Isn't there anybody that speaks English here?
Teve (houve) uma festa ontem de noite. - There was a party last night.
Vai ter (haverá) outra festa semana que vem? - Is there going to be another party next week?



5. No TO after modals: (erro comum até níveis intermediários)

Os verbos modais (auxiliary modals) em inglês (can, may, might, should, shall, must), são verbos que nunca ocorrem isoladamente; ocorrem apenas na presença de outro verbo. Ao contrário dos demais verbos, entretanto, os modais ligam-se ao verbo principal diretamente, isto é, sem a partícula TO. Observe os seguintes exemplos:

He can speak English. - Ele sabe falar inglês. He likes to speak English. - Ele gosta de falar inglês.
Can I smoke here? - Posso fumar aqui? Do you want to smoke? - Você quer fumar?

O aluno principiante deve cuidar especialmente com o verbo CAN, que é usado com muita freqüência. Uma forma de internalizar estas estruturas é decorar exemplos como os acima.


6. A Combinação impossível de FOR com TO: (erro comum até níveis intermediários)
O fato de ser o infinitivo em inglês formado pelo verbo precedido da preposição TO, aliado ao fato de ser comum em português a colocação de idéias do tipo VERBO + PARA + VERBO NO INFINITIVO, induz o aluno freqüentemente a colocar a mesma idéia em inglês usando a combinação das preposições FOR + TO. Esta entretanto é uma combinação impossível, não ocorrendo jamais em inglês. Observe nos seguintes exemplos as alternativas corretas:

Eu vim para falar contigo. - I came to talk to (with) you.
Ela se ofereceu para me ajudar. - She offered to help me.
Para aprender, é necessário estudar. - It's necessary to study, in order to learn.
Isto é um instrumento para medir velocidade. - This is an instrument for measuring speed.

Como regra geral, sempre que houver tendência de colocar FOR + TO, o aluno deve lembrar-se de simplesmente eliminar a primeira preposição.


7. No double negative words: (erro comum até níveis intermediários)
No português normalmente colocamos dupla-negações na mesma frase. Pronomes indefinidos como NADA, NENHUM, NINGUÉM, podem ser usados livremente em frases negativas. Isto em inglês é gramaticalmente incorreto. Exemplos:

Não tem nada que eu possa fazer. - There's nothing I can do. / There isn't anything I can do.
Eu não tenho nenhum problema. - I have no problems. / I don't have any problems.
Não tem ninguém em casa. - There's nobody home. / There isn't anybody home.


8. O numeral ONE e o artigo A(N): (erro comum até níveis avançados)

Quem fala português como língua mãe, facilmente se confunde com o numeral ONE e com o artigo indefinido A, porque em português ambos são representados pela mesma palavra: UM. Exemplos:

I just have a car. (It's not an airplane) - Tenho apenas um carro. (Não um avião)
I just have one car. (Not more than one) - Tenho apenas um carro. (Não mais do que um)

Na maioria dos casos, é o artigo indefinido que deve ser usado. Observe os seguintes exemplos:

Eu tenho um problema. - I have a problem.
Um amigo é mais importante que dinheiro. - A friend is more important than money.



9. No THE before names and other article problems. (erros comuns até níveis intermediários)
Em ambas as línguas, inglês e português, existem artigos que se subdividem em definidos (o, os, a, as - the) e indefinidos (um, uns, uma, umas - a, an). Portanto, no uso de artigos há pouco contraste entre os dois idiomas, a não ser por alguns casos excepcionais.

a) Em português normalmente se usa artigo na frente de nomes próprios, enquanto que em inglês, salvo algumas exceções, não se usa. Veja os seguintes exemplos:

O Sr. Jones é meu amigo. - Mr. Jones is my friend.
A IBM é uma empresa grande. - IBM is a large company.
A Alemanha é um país desenvolvido. - Germany is a developed country.
O inglês do Peter é melhor que o do John. - Peter's English is better than John's.

Observe entretanto as seguintes exceções:

The United States - Os Estados Unidos
The Soviet Union - A União Soviética
The European Community - A Comunidade Européia
The CIS (Community of Independent States) - A CEI
The United Kingdom - O Reino Unido
The Netherlands - Os Países Baixos
The Philippines - As Filipinas
The Falklands - As Malvinas

b) Em português não se usa artigo indefinido antes de profissões:

Ele é médico. - He's a doctor. Sou professor. - I'm a teacher.

c) Em português não se usa artigo definido quando se fala de tocar instrumentos musicais:

Ela toca piano. - She plays the piano.


10. SAY and TELL (erro comum até níveis avançados)
Os verbos SAY e TELL, embora praticamente sinônimos no significado (transmitir informação), gramaticalmente são diferentes. Ambos podem ser traduzidos em português pelos verbos DIZER e FALAR, sendo que TELL pode ser também traduzido por CONTAR. A diferença reside no fato de que com o verbo SAY, normalmente não há na frase um receptor da mensagem (objeto indireto); enquanto que com o verbo TELL o receptor da mensagem está normalmente presente na frase. Veja os exemplos:

He said that inflation will decrease. - Ele disse que a inflação vai diminuir.
He told the reporters that inflation will decrease. - Ele disse aos jornalistas que a inflação vai diminuir.
What did he say when you told him this? - O que é que ele disse quando tu disseste isso para ele?

Entretanto, quando se reproduz textualmente as palavras do emissor da mensagem, o verbo a ser usado deve ser sempre SAY, mesmo que o receptor da mensagem esteja presente na frase. Exemplo:

He said "Good morning" to us. - Ele disse "Bom dia" para nós.


11. A FRIEND OF MINE ..., not MY FRIEND ... (erro comum até níveis intermediários)
Em português é muito comum dizer-se: Meu amigo …, quando o mais correto seria talvez dizer: Um amigo meu …. Qualquer uma destas formas em inglês corresponde sempre a: A friend of mine …. Observe os seguintes exemplos:

Um amigo meu está nos Estados Unidos. - A friend of mine is in the U.S
Meu amigo está nos Estados Unidos. - A friend of mine is in the U.S.



12. UMA PESSOA = SOMEBODY (erro comum até níveis intermediários)
Freqüentemente brasileiros que falam inglês encontram dificuldade em usar SOMEBODY ou SOMEONE. Em português, a expressão "UMA PESSOA ...", que é muito comum, corresponde normalmente a SOMEBODY em inglês. Observe os seguintes exemplos:

Tem uma pessoa aí que quer falar contigo. - There is somebody here who wants to talk to (with) you.
Uma pessoa me falou que ele vai se aposentar. - Somebody told me he's going to retire.
Eu ouvi uma pessoa falando inglês. - I heard someone speaking English.


13. No TODAY and no IN before THIS ...(time)... (erro comum até níveis intermediários)
Algumas expressões adverbiais de tempo como HOJE DE MANHÃ, NESTA MANHÃ, HOJE DE TARDE, NESTA TARDE, NESTE MÊS, etc., facilmente induzem o aluno a usar a palavra TODAY ou a preposição IN em inglês. Observe os seguintes exemplos:

Hoje de manhã (Nesta manhã ) ... - This morning ...
Hoje de tarde (Nesta tarde) ... - This afternoon ...
Nesta semana ... - This week ...
Hoje de noite ... - Tonight ...
Neste momento ... - At this moment ...


14. YOUR não é o mesmo que SEU (DELE, DELA) (erro comum até níveis intermediários)
Devido ao fato de que português tem na 2a pessoa (você) o mesmo tratamento gramatical dado à 3a pessoa (ele ou ela), o aluno freqüentemente encontra dificuldade no uso correto dos pronomes possessivos em inglês. Por exemplo:

Este é o seu livro. (de você) - This is your book.
Este é o seu livro. (dele) - This is his book.
Este é o seu livro. (dela) - This is her book.


15. I THINK SO não é o mesmo que I THINK (THAT) … (erro comum até níveis intermediários)
I THINK SO é sempre uma frase completa, terminando em ponto final, e corresponde à expressão do português ACHO QUE SIM. I THINK … ou I THINK THAT … sempre introduz uma oração subordinada (relative clause), e corresponde a ACHO QUE … Por exemplo:

Is it going to rain? I think so. - Será que vai chover? Acho que sim.
I think this is my book. - Acho que este é o meu livro.
Many people think that inflation is worse than unemployment. - Muitos acham que inflação é pior que desemprego.



16. Countable & Uncountable nouns - uso correto de seus quantifiers (erro comum até níveis avançados)
O fato de alguns substantivos não serem normalmente usados no plural (ex: dinheiro), é irrelevante em português. Em inglês, entretanto, este fato é de relevância gramatical. A classificação dos substantivos em countable (contáveis, isto é, que podem ser contados) e uncountable (incontáveis, isto é, que não podem ser contados ou pluralizados. Ex: dinheiro, água) é de grande importância porque, dependendo da categoria, diferentes quantifiiers terão que ser usados. Quantifiers são uma categoria de determiners, normalmente adjetivos, pronomes e artigos que quantificam substantivos.

Only Uncountable Only Countable Uncountable & Countable
much (neg. int.) many a lot (of)
very much (neg. int.) very many quite a lot (of)
too much (neg. int.) too many plenty (of)
several enough
a little (affirm. int.) a few (affirm. int.) some (affirm. int.)
very little (affirm. int.) very few (affirm. int.) any (neg. int.)
too little (affirm. int.) too few (affirm. int.) none (affirm.)
each no
every all
a, an (singular) the



17. Countable & Uncountable contrasts with Portuguese: (erro comum até níveis avançados)
Na maioria dos casos existe correlação entre os substantivos de português e inglês. Isto é: se o substantivo for uncountable em português, também o será em inglês. Em alguns casos entretanto, essa correlação é traída, induzindo o aluno a erro. Exemplos:

Eu vou pedir algumas informações sobre ... - I'm going to ask for some information about ...
Agora ainda temos que comprar os móveis. - Now we still have to buy the furniture.

INGLÊS PORTUGUÊS
information informações
knowledge conhecimentos
advice conselhos
equipment equipamentos
furniture móveis
vacation férias
medicine remédios
fruit frutas
bread pães

O fato de estes substantivos do inglês estarem aqui relacionados como uncountable, não significa que os mesmos não possam jamais ser usados no plural. Significa apenas que normalmente, em linguagem coloquial, no inglês moderno, não são usados no plural.



18. Verb transitivity contrasted (erro comum até níveis avançados)
Verbos podem ser transitivos diretos ou indiretos. Transitivo direto é o verbo que transita diretamente ao seu complemento. Por exemplo: TOMAR CAFÉ. Transitivo indireto é o verbo que transita ao seu complemento por intermédio de uma preposição. Por exemplo: TELEFONAR PARA O PAULO.

Inglês e português normalmente correspondem no que se refere a transitividade dos verbos. Isto é: se o verbo é transitivo direto em português, provavelmente também o é em inglês. Existem alguns casos, entretanto, em que essa correlação é traída. Por exemplo:

like
gostar de I like coffe. (D)
Eu gosto de café. (I)
tell
falar para, dizer para I've already told John. (D)
Já falei para o John. (I)
call
telefonar para I have to call him. (D)
Tenho que telefonar para ele. (I)
ask
perguntar para, pedir para Ask him. (D)
Pergunta para ele. (I)
listen to
escutar I like to listen to music. (I)
Gosto de escutar música. (D)
need
precisar de I need help. (D)
Preciso de ajuda. (I)
ride
andar de Why don’t you ride a bicycle? (D)
Por que você não anda de bicicleta? (I)
attend
participar de We attended a seminar. (D)
Nós participamos de um seminário. (I)
enter
entrar em He entered the kitchen. (D)
Ele entrou na cozinha. (I)

Como pode-se ver nos exemplos acima, na maioria dos casos em que há discordância, o verbo em inglês é transitivo direto (D) enquanto que em português é transitivo indireto (I). A única exceção parece ser a do verbo to listen.


DICAS PARA APRIMORAR SEU INGLÊS GRAMATICALMENTE
Se a uma criança americana, que logicamente fala inglês fluentemente, lhe for perguntado porque usa o verbo auxiliar da forma que o faz, provavelmente ela ficará perplexa, pois não saberá nem sequer de que se trata a pergunta. É este domínio intuitivo, automático, inconsciente da estruturação gramatical do idioma que nos permite não apenas falar fluentemente e corretamente, mas também escrever. O aluno não precisa saber porque as estruturas são como são, desde que as formas corretas lhe soem melhor, mais familiar aos ouvidos. Controle sobre as estruturas gramaticais básicas da língua deve ser alcançado o quanto antes. É o primeiro grande passo no processo de aprendizado. Por esta razão, é fundamental que o aluno procure desde o início de seu aprendizado o contato com estrangeiros, na qualidade de instrutores ou não, de forma a expor-se unicamente a uma língua estrangeira autêntica, rica nos planos fonológico, idiomático e gramatical.

Uma grande diferença entre o português e o inglês está na forma de estruturar o pensamento. É na estruturação das frases que reside um dos principais contrastes entre as duas línguas. A dificuldade aparece quando o aluno tenta "traduzir" uma estrutura do português para o inglês, palavra por palavra. A correlação entre as duas línguas nem sempre ocorre a nível de palavras, mas sim a nível de frases. Além disso, cada língua tem suas peculiaridades idiomáticas. É preciso, pois, desenvolver uma associação direta entre as idéias e as formas usuais de expressar estas idéias, a nível de estrutura. Não se trata de aprender um sistema de regras, mas de adquirir familiaridade através de nossa memória auditiva com um conjunto de formas com todas suas irregularidades. Enquanto a mecânica básica de estruturação de frases não estiver plenamente assimilada e automatizada, muita energia mental será desperdiçada para montar a frase. É preciso adquirir total familiaridade para que o esforço mental possa concentrar-se em vocabulário, na idéia, na criatividade. As técnicas dos métodos audiolingüísticos de memorização de textos ou diálogos e prática exaustiva das estruturas através de exercícios de substituição e repetição proporcionam normalmente bons resultados num estágio inicial. Além da técnica audiolingüística baseada em memorização auditiva e repetição mecânica, é fundamental implementar a internalização completa das novas estruturas através de um esforço criativo-comunicativo. Se o aluno procurar adaptar os elementos da língua estrangeira à sua realidade, usando estruturas corretas para expressar suas opiniões e apresentar sua maneira de pensar, e fizer disto um hábito, uma espécie de hobby mental, os resultados serão surpreendentes.
Ricardo Schütz